Isto é bossa nova?!
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de setembro de 1998
Rodrigo Teixeira Cult Press 
No ano em que se comemoram 40 anos da bossa nova, o disco Bossa Cuca Nova - Volume I chega para mostrar que o ritmo brasileiro mais festejado no exterior pode ganhar nova roupagem. O CD, lançado pela gravadora carioca Albatroz, reúne clássicos da bossa, mas todos remodelados com estilo techno e dance. O resultado é surpreendente. Sucessos de compositores como Carlos Lyra, Roberto Menescal, Baden Powell, Tom Jobim e Vinícius de Moraes deixam a base centrada na batida do violão para receber levadas de bateria e percussão eletrônica, ruídos sonoros e scratchs - efeitos que os DJs produzem com discos em vinil.
A idéia de realizar o CD surgiu no início de 1997, quando os produtores Márcio Menescal - filho do guitarrista Roberto Menescal - Alexandre Moreira e Marcelo Dalua encontraram várias gravações da década de 60, época áurea da bossa nova, no acervo da gravadora Albatroz. Admiradores da dance music e inspirados no grupo americano US3, que desde o início dos anos 90 utiliza clássicos do jazz como base para fazer músicas dançantes, o trio resolveu submeter a bossa nova ao mesmo processo, mas utilizando vozes originais de cantores como Sylvio César, Wanda Sá e Astrid Gilberto. Após algumas experiências e com carta branca dos compositores, o trio escolheu dez canções para o projeto.
Influência do Jazz, música de Carlos Lyra gravada em 1960, se encaixou perfeitamente na proposta do disco. Como o compasso é lento, a música ficou próxima do funk americano. Com a voz suave de Carlos Lyra seguindo a melodia intrincada da canção, o resultado é um acid jazz brasileiro. O fato do compositor dizer na letra que o samba foi se misturando e se modernizando é uma espécie de visão futurista do que a bossa nova poderia passar no futuro e que aconteceu exatamente em Bossa Cuca Nova. Já o clássico O Barquinho, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, ganha uma versão instrumental, com novo solo de guitarra acústica de Menescal. Com uma técnica apurada e nos moldes dos solos de George Benson, o músico cria improvisos complexos.
É em Só Danço Samba, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes e com interpretação de Os Cariocas, que o choque de estilos fica mais aparente. Com um arranjo impecável de 1959, o grupo mostra uma grande habilidade para formar harmonias com as vozes. É a faixa mais original do CD. O refrão, repetido várias vezes e com divisões diferentes, torna a audição da música admirável. Em Samba de Uma Nota Só, na voz de Cláudia Telles, o trio de produtores prova que a canção de Tom Jobim e Newton Mendonça é mais camaleônica da bossa nova. É a faixa que manteve a fórmula original e, mesmo assim, se adequou perfeitamente à proposta do disco.
Ao subjugar a bossa nova a tecnologias modernas e reciclar canções compostas há mais de 30 anos, os produtores do disco obtêm pelo menos um mérito de saída: atiçar a curiosidade de uma geração que provavelmente nunca escutaria bossa nova. E mesmo que chegue embrulhada numa roupagem dance, é a oportunidade do ritmo ganhar novos admiradores e inspirar compositores a germinar um novo tipo de bossa, ainda muito ligada aos sucessos do passado. É uma forma de também sacudir a poeira de músicas que eram consideradas modernas para a época no mundo inteiro e que hoje em dia no Brasil são taxadas de antigas.
Mas o disco Bossa Cuca Nova também serve para desfazer alguns mitos em torno da bossa nova. A idéia de que ela é basicamente uma música calcada na harmonia é totalmente desfeita. A base harmônica das dez faixas do CD foram retiradas praticamente na sua totalidade e a riqueza das canções permaneceu inabalável. A bossa nova, mesmo que tenha recebido influências do jazz, é antes de tudo um estilo centrado na cadência do samba. O fato da bossa ser interpretada por cantores de voz limitada, e que poderia aprisionar o estilo junto ao banquinho e o violão de João Gilberto, também cai por terra. Em Maria Moita, por exemplo, Carlos Lyra reforça que o importante não é ter grandes recursos vocais, mas ser afinado. Bossa Cuca Nova abre um novo caminho à clássica bossa nova.


