Isadora Duncan passou a vida a transgredir os cânones da dança, e a cada investida foi cunhando seu nome na história. Ela queria a liberdade dos movimentos e tamanha era a asfixia na vontade de ir além que o final da vida foi aquele que todos conhecem: o passeio num carro aberto e a longa echarpe que lhe envolvia o pescoço enroscando-se na roda do veículo.
Essa mulher intensa é o tema do espetáculo que fica em cartaz de hoje a domingo, em Curitiba, no Teatro Fernanda Montenegro, com Roberto Cordovani e Nuno Homem de Sá. Texto e direção de Cordovani. ‘‘Isadora Duncan’’ teve estréia mundial no teatro do Casino Estoril, em Portugal, e há dois meses cumpre turnê pelo Brasil.
Cordovani, que vive a bailarina, conquistou 14 prêmios internacionais com outro espetáculo em que também fez o papel de uma mulher - a estrela de cinema Greta Garbo em ‘‘Olhares de Perfil’’, peça de impactante beleza apresentada anos atrás no Guairinha. Por não ser nome global, Cordovani foi visto na época por uma platéia mediana.
Embora ‘‘Isadora Duncan’’ tenha uma encenação puramente teatral, a dança também se faz presente. O ator dança seis coreografias da artista. ‘‘Todo gestual que faço no espetáculo é extraído das esculturas de Rodin’’, explica. A decisão em se estudar as obras do escultor para compor o desenho dos gestos baseou-se na amizade que por muitos anos ligou os dois artistas. Mas o trabalho privilegia especialmente a mulher fora dos palcos. Marcada por tragédias, ela mergulha em conquistas e fracassos com a mesma intensidade.
A trajetória de sua vida envolve diversos homens, representados pelo ator português Nuno Homem de Sá. São políticos, maridos, críticos, filhos, amantes. Homem de Sá atuou como galã de novelas, passou dez anos nos Estados Unidos onde também estreou no cinema.
Diz a história que numa viagem ao Brasil, a bailarina relacionou-se com um negro e engravidou. Seria este o terceiro filho, morto duas horas após o nascimento. O diálogo entre a artista e o brasileiro foi contundente. ‘‘Posso fazer alguma coisa?’’, ele perguntou, solícito. Ao que ela respondeu: ‘‘Salve-me da loucura. Dê-me um filho.’’
Roberto Cordovani conta que se interessou pela bailarina norte-americana por vias transversas. Ele estava realizando pesquisas sobre regressão a vidas passadas, para uma série televisiva, quando foi convidado a participar de uma ‘‘experiência estranha’’.
Teria que se submeter a uma sessão de vigília consciente, onde falaria tudo que viesse à mente, sem se preocupar em coordenar as idéias nem policiar-se quanto ao conteúdo. Nessa espécie de transe o ator passou a citar fatos da vida pessoal e profissional de Isadora. Mais que isso: vivenciou intensamente essas passagens.
Foram duas horas e quinze minutos de falas, naquilo que relatou sem controle havia referências ao escultor Auguste Rodin, que foi amante da bailarina, a viagem dela ao Brasil, o encontro com o negro, uma casa e rua específicas de Chicago, contadas com detalhes, inclusive o número do prédio.
Uma amiga presenteou o ator com uma obra autobiográfica de Isadora, e aí veio a surpresa maior: daquilo que ela conta no livro, vários casos eram exatamente aquilo que ele havia dito na sessão semi-hipnótica. Cordovani anotou 38 itens. ‘‘Não eram só coincidências, eram minúcias’’, afirma.
Há mais de 15 anos morando na Espanha, Roberto Cordovani - nascido em São Paulo - é premiadíssimo no exterior. ‘‘Olhares de Perfil’’, que coloca em cena Greta Garbo, é seu trabalho mais conhecido e lhe valeu 14 prêmios internacionais. Foi levada ao palco mais de 1.300 vezes em 12 anos de carreira.
‘‘Dos 35 personagens que interpretei, apenas seis são mulheres’’, diz o ator, por ter uma ligação quase automática entre seu nome e as personagens que defende. Todas belíssimas, charmosas e envergando figurinos deslumbrantes, de irrepreensível bom gosto.
A elegância é nota marcante também em ‘‘Isadora Duncan’’. As roupas desenhadas por Maria Armanda fascinam a platéia, enquanto o cenário austero é dividido entre flores, velas e uma iluminação discreta, com a finalidade de tornar ainda mais denso o clima do espetáculo.
Vinda de uma família pobre e transformando-se numa artista internacional de enorme popularidade, Isadora tinha a marca da morte evidenciada a ferro e fogo em sua vida. O marido suicidou-se enforcado; o filho recém-nascido morreu por asfixia e antes disso, os dois meninos pelos quais ela dava a própria vida, morreram afogados. A história da echarpe encerrou de vez tantas asfixias.

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