Isabel Allende quebra tradição
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de agosto de 2010
Ubiratan Brasil<BR>Agência Estado 
A escritora chilena Isabel Allende tomou uma decisão radical: não vai mais iniciar a escrita de seus livros seguindo uma tradição pessoal - todos começaram a tomar forma no dia 8 de janeiro, data em que, em 1981, ela iniciou uma carta para o avô que estava morrendo e que se transformou no seu primeiro grande sucesso, ''A Casa dos Espíritos''. ''Quero sentir o gosto da liberdade, deixar que a inspiração apareça em qualquer momento para dominar a criação'', diz ela. A escritora esteve no Brasil no início deste mês participando da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip).
''Há dois anos venho sentindo essa inquietude, esse desejo de ter menos responsabilidade e de aproveitar melhor a vida. Estou envelhecendo, é chegada a hora. Cansei dessa escravidão literária.''
Aos 68 anos, e dona de marcas espantosas na venda de livros (já beira um milhão só no Brasil), Isabel não teme a força de um possível desvio em sua carreira. ''Tudo o que eu queria realmente dizer está em meus 18 livros. O que vier agora é extra e já adianto que será algo diferente - não sei ainda o quê, mas estou pronta para novos caminhos.'' De fato, um grande derramamento de mágoa, raiva, tristeza e dúvida tinha de acontecer antes que a segurança e o bom humor da escritora madura pudessem passar a existir. Sobrinha do presidente Salvador Allende, morto em um golpe militar em 1973, Isabel precisou se exilar e, depois de uma temporada na Venezuela, estabeleceu-se nos Estados Unidos, onde ainda se sente uma mulher sem chão próprio. ''Quando estou no Chile, logo descubro que não pertenço mais àquele país e o mesmo acontece onde vivo hoje, pois o inglês não é a minha língua.''
Esse dualismo, ela vence por meio da escrita. ''Meus livros são pensados em espanhol e vertidos para o inglês sempre pela mesma tradutora, uma senhora de quase 90 anos''.
O conforto espiritual de Isabel Allende se expande além de seu sorriso constante. Na cidade colonial onde está desde terça-feira de manhã, vinda de avião, e onde também terá amanhã (05), às 17h15, uma das mais esperadas mesas da 8Festa Literária Internacional de Paraty, ela ainda desfruta de um certo anonimato, circulando com tranquilidade com o marido, o também escritor William Gordon, com quem vive em São Francisco. Ontem, passeou de barco pelas ilhas da redondeza. ''Almocei em um restaurante rústico, cujo proprietário parece viver como Robson Crusoé.''
A realidade interessa Isabel Allende, a despeito de sua fama de escritora fantástica. Ela faz, por exemplo, uma interessante distinção entre fantasia e realismo mágico. ''A primeira inspira obras como a saga Harry Potter, que pode se tornar invisível bastando se esconder sob um manto mágico'', diz. ''A segunda inspira cenas à la García Márquez, em que um pescador puxa em sua rede peixes, palhaços, elefantes - foi o navio de um circo que afundou.''


