Irreverência sempre atual
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de janeiro de 1998
Ademir Fernandes Agência Estado 
Arquivo FolhaSérgio Porto: O Stanislaw surgiu na imprensa por uma contingência da própria imprensaEle não perdoava lugares comuns, gafes e todo tipo de besteiras publicadas pela imprensa, mas tudo isso se transformou na matéria-prima de seu trabalho, movido a um humor demolidor e, ao mesmo tempo, genial. Ainda hoje, raro é o dia em que o nome de Sérgio Porto não seja lembrado, tantas foram as expressões e histórias engraçadas que criou. Basta qualquer personalidade se expressar de modo confuso para que alguém invoque imediatamente o Crioulo Doido - aquele que virou a História do Brasil do avesso num samba-enredo sem pé nem cabeça:
Foi em Diamantina/onde nasceu Jotacá/que a princesa Leopoldina/arresolveu se casá/Mas Xica da Silva/tinha outro pretendente/e obrigou a princesa/a se casar com Tiradentes/Joaquim José/que também é/da Silva Xavier/ queria ser dono do mundo/e se intitulou Pedro Segundo...
O carioca Sérgio Porto nasceu em 11 de janeiro de 1923 numa casa da rua Leopoldo Miguez, bairro de Copacabana. Nunca se mudou de lá. Quando a velha casa deu lugar a um prédio, continuou morando ali, num apartamento, até o dia de sua morte - em 30 de setembro de 1968, aos 45 anos. Pensou em ser arquiteto, mas trocou o curso por um emprego no Banco do Brasil, onde trabalhou durante 22 anos. Começou na imprensa como cronista de cinema do Jornal do Povo, passou pela revista Sombra e, em seguida, para o Diário Carioca. Foi nesse jornal que nasceu seu alter-ego, Stanislaw Ponte Preta, em 1951.
Nessa época, o jornalista Maneco Muller escrevia uma badalada coluna social, sob o pseudÔnimo de Jacinto de Thormes e, quando saiu, Sérgio foi chamado para substituí-lo. Ele aceitou o desafio, mas avisou que gostaria de adotar um estilo irreverente, sob um nome fictício. E não queria saber de usar expressões como champanhota, piu-piu ou bola branca. Primeiro, escolheu Serafim Ponte Grande, inspirado no livro de Oswald de Andrade, mas depois mudou para Stanislaw Ponte Preta. Foi um sucesso imediato.
Vira o rosto, Tunica! - O Stanislaw surgiu na imprensa por uma contingência da própria imprensa, explicou, tempos depois. Foi numa época em que os cronistas mundanos dominavam as páginas dos jornais, com suas colunas de neologismos e auto-suficiência. Antes disso, Stanislaw só assinava notas promissórias.
Do Diário Carioca, foi para a Última Hora e, finalmente, para o Diário da Noite, onde ficou até o dia de sua morte. Produziu vários programas de rádio, entre os quais Da Boca Pra Fora e Miss Campeonato, fez comentários bem ao seu estilo na TV, no Jornal de Vanguarda, de Fernando Barbosa Lima. Produziu e apresentou o Stanislaw Ponte Preta Show, escreveu peças para teatro, diálogos e roteiros para o cinema, escreveu a Pequena História do Jazz...e foi exatamente por conhecer bem essa área que ele participou de um programa de perguntas na época, O Céu é o Limite, respondendo sobre música popular brasileira.
O primeiro livro de crônicas foi escrito em 1958: O Homem ao Lado, reeditado e ampliado em 1961, sob o título A Casa Demolida. Como Stanislaw Ponte Preta, escreveu Tia Zulmira e Eu, Primo Altamirando e Elas, Rosamundo e os Outros, Garoto Linha Dura e a série Febeapá - Festival de Besteiras que Assola o País - 1, 2 e 3, além de Na Terra do Crioulo Doido.
Também escreveu As Cariocas, reunindo seis novelas com nomes de mulher, e criou As Certinhas do Lalau em sua coluna, onde publicava fotos de belas mulheres, principalmente vedetes de sucesso na época. Estava começando a escrever O Transplante quando passou mal e foi levado às pressas para o hospital.
Segundo seu grande amigo, o jornalista Mário de Moraes, quando sua empregada começou a chorar ao vê-lo saindo de maca, ele ainda brincou: Vira o rosto pra lá, Tunica, que eu estou apagando e não gosto de ver mulher chorando ao meu lado.


