Irreverência pouca é bobagem
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sábado, 20 de abril de 2002
Zeca Corrêa Leite Equipe da Folha 
Curitiba O começo dos anos 80 ainda trazia a seriedade da ditadura militar, apesar de combalida àquela altura, mas nada como ter leis proibitivas para aparecerem os espíritos de porco com humor irônico e cáustico, vingando-se da situação reinante. Foi nesse cinza existencial que uma rapaziada apareceu na cena musical brasileira, atendendo pelo nome de Língua de Trapo. Nas (boas) lojas de discos é possível encontrar o último disco do grupo: Língua de Trapo Vinte e Um Anos de Estrada, lançado pela Dabliú, com distribuição da Eldorado. Na capa seus integrantes estão atravessando a faixa de uma rua, à semelhança da Abbey Road, do Beatles. Na contracapa, a dura realidade: todos foram colhidos pelo trânsito e estão estendidos, cobertos por jornais. Nem um pingo do charme do quarteto.
Isso mostra que o grupo não perdeu a irreverência mesmo chegando à maioridade. Inspirador e fonte de influências de artistas como André Abujamra, do grupo Karnak, Mamonas Assassinas e Casseta & Planeta, o Língua marcou toda uma geração e se prepara para novos tempos. Enquanto não surge um novo disco, os fãs têm este gravado ao vivo no Teatro Sesc Pompéia. As 17 faixas são formadas por oito hits obrigatórios e nove composições inéditas.
Da nova fornada destacam-se o xote O Cookie do Meu Bem, explícita homenagem a Genival Lacerda, com letra no tradicional duplo sentido; Ai, que Vontade!, debochada gozação em cima dos pagodeiros, com um exercício de 26 sinônimos para o ato de ralar e rolar e Movido a Álcool, que eles definem como heavy-pagode-etílico. Entre as consagradas não poderia faltar Concheta, e ali estão também O Homem da Minha Vida, Quem Ama não Mata e Força do Pensamento.
Com duas décadas de história o conjunto sofreu algumas substituições em sua formação. Chegou mesmo a interromper as atividades durante quatro anos, entre 1987 e 1991. O ator e cantor Moisés Inácio é um dos integrantes que entrou para o grupo num segundo momento. Mesmo assim, lá se vão doze anos, embora seu papel seja o de elemento performático. Em conversa com a Folha2 o ator disse que o Língua está retomando sua característica teatral, depois de passar uma fase essencialmente musical.
Um novo show está sendo montado para estrear no segundo semestre no Teatro Folha, em São Paulo. Um pergunta recorrente: como o Língua vai se safar numa época marcada pelo humor rasteiro? Inácio aposta no tom teatral para conquistar a platéia e no mais, humor é sempre humor. Dá para rir da realidade. Tem mais: no projeto do grupo consta espaço para convidados, como Premeditando o Breque e outras bandas que têm a ver.
Esses nomes estão mais para a história que para o modismo badalado pela mídia. Mesmo assim a herança cultural é muito forte. É engraçado ver que boa parte do público do Língua é formado por filhos dos fãs que aplaudiam o grupo nos anos 80, afirma o ator. A fidelidade é sentida com clareza em Curitiba.
Aqui é o nosso forte, sempre tivemos ótimas platéias. Lembro de uma vez que fizemos o Paiol. Lotou todos os dias e voltamos a São Paulo achando uma pena ter que deixar a cidade.


