IRREVERÊNCIA EM TODOS OS CANTOS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de maio de 2000
Jackeline Seglin De Londrina 
Nem durante a entrevista eles levam a conversa a sério. Trocam seus nomes, fazem brincadeiras e tiram sarro deles mesmos. Já conhecidos pelo bom humor, Hugo Possolo, Alexandre Roit e Raul Barreto os Parlapatões, Patifes & Paspalhões estão em Londrina para uma dupla tarefa no Festival Internacional, o Filo. Hoje, o trio inicia uma série de apresentações pela manhã nas ruas da cidade e uma oficina de palhaços com detentos da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL). O grupo, criado em 1991, trilha uma carreira versátil que passa pela união do teatro, circo e teatro de rua.
Com experiências anteriores realizadas com menores abandonados em várias cidades brasileiras, esta é a primeira incursão por um presídio. Pelos menos trabalhando. Mas já passamos uma noite numa cadeia, a passeio, brincam. Agora estamos prontos para fazer a foto de perfil e frente, além de sujar os dedos tocando o piano, diverte-se Hugo Possolo, um dos fundadores da trupe.
Palhaçadas à parte, os Parlapatões estavam com uma forte expectativa em relação à nova experiência. Antes do primeiro contato com os 12 participantes da oficina, o grupo contou que foi chamado para desenvolver com eles um trabalho para ser mostrado nos dias de visita.
Bastante à vontade com a proposta, Hugo Possolo observa que qualquer forma de expressão é libertária e o grupo vai trabalhar exatamente com quem está privado de liberdade. Com humor, queremos brincar e destruir coisas estabelecidas, completa Alexandre Roit. Possolo acredita que o humor é um instrumento que muda a ótica das coisas e é através dele que os Parlapatões pretendem descobrir como mudá-la dentro da PEL. A possibilidade de brincar é diferente quando criada nas rédeas. Mas apesar de modificada, acredito que ela exista.
No trabalho com o grupo de detentos cujas penas variam de oito a 40 anos os artistas pretendem passar, em cinco dias, a base de técnicas circenses e números de palhaços, para que eles possam desenvolver um potencial. Além dessas noções, a gente fala da história do circo, que hoje anda tão esquecido e marginalizado. Com isso, passamos a visão do mundo do artista, que como a deles, é diferente, diz Possolo. Depois de quatro dias de atividades, os internos estarão prontos para a apresentação do resultado do trabalho no próximo domingo de visita.
A maior preocupação do grupo no trabalho com os detentos não tem nada a ver com possíveis riscos que para eles são diluídos numa relação humana, real e libertadora. Nos preocupamos com a nossa comunicação com eles. Não podemos ter um olhar discriminatório. Eles estão cumprindo sua pena. Vamos mostrar que há outras maneiras de reconduzir o preso à sociedade e de uma forma que ele mesmo escolheu, finaliza Possolo.
A mesma arte ensinada na Penitenciária será mostrada pelos Parlapatões nas ruas de Londrina, em cinco curtas interferências, de no máximo 30 minutos cada, em diferentes pontos da cidade hoje, o local escolhido foi a Praça Rocha Pombo, centro da cidade. O trio vai apresentar uma seleção de alguns números que fazem parte dos espetáculos Nada de Novo, Bem Debaixo do Seu Nariz e De Cá Pra Lá, de Lá Pra Cá. Apesar de linguagens diferentes, os três trabalhos têm em comum a capacidade de comunicação direta com a platéia, o humor e as habilidades circenses.
Os Parlapatões voltam a se apresentar na segunda fase do Filo, nos dias 9 e 10 de junho, com o espetáculo ppp.wllmshkspr.br, no palco do Ouro Verde. Com direção de Emílio di Biasi, o espetáculo estreou em 1998 e já ultrapassou 260 apresentações.
Leia mais sobre o Filo na página 3.


