Irreverência como fio condutor
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segunda-feira, 02 de julho de 2007
Marcelo Pen<br> Folhapress 
A obra que ostensivamente sustenta o enredo de ''Purgatório: a Verdadeira História de Dante e Beatriz'', novo romance de Mario Prata é, claro, a ''Divina Comédia'', de Dante Alighieri. Como lá, a musa do protagonista, uma antiga paixão da juventude, pretende guiar-lhe na trajetória do além-túmulo.
Como lá, igualmente, há um Virgílio, aqui um subalterno do bancário Dante. Ele acompanha o herói pelo inferno que, na ficção de Prata, também é sinônimo de nossa vida cotidiana. Em reforço biográfico ao pastiche, o Dante de Prata, como o Alighieri, também deixou de casar-se com Beatriz para contrair esponsais com uma dama chamada Gemma.
Essa aproximação ostensiva é, porém, no miúdo e no acirrado da análise, no máximo superficial. Enquanto o florentino procurou, em sua obra máxima, compendiar todo conhecimento, toda literatura, paixão e ideologia de sua época, o objetivo do paulista é bem menos pretensioso.
Prata pretende divertir. Escrita originalmente na forma de folhetim, sua ficção vale-se de todos os recursos para, digamos, fisgar o leitor: humor, escracho, suspense, ganchos, reviravoltas e paralelos espertos ou não.
No romance de Prata, o inferno é bem aqui. Virgílio não é o grande poeta que compôs a monumental ''Eneida'', mas um escritor frustrado que, nas horas vagas, se entretém com rapazolas. Ninguém parece destinado ao Paraíso, nem mesmo Beatriz, que fica mesmo no Purgatório - e, depois descobrimos, nem isso.
Nesta narrativa em que o clichê é a norma e a ascese é impossível, tudo é reduzido, tipificado, infantilizado. Há uma preferência aos extremos sem meios-tons, verificada na tendência de até literalmente esticarem-se ou encurtarem-se os personagens.
A figura que ''materializa'' Beatriz na Terra (a amada morreu num desastre aéreo), por exemplo, é uma médium anã. Gemma, em dado momento, é acometida de certa ''síndrome de Pantagruel'', que a faz crescer diariamente.
Mais significativo, o psicanalista que tenta escrever ''A Verdadeira História de Dante e Beatriz'' é chamado Júnior, e depois, apenas Juninho. Ao contrário do ''pai'', Freud claro, criador da psicanálise, Prata não se ocupa dos duplos sentidos, das camadas de significado que se ocultam sob o texto, do vórtice tenebroso das paixões, das razões que a própria razão desconhece.
Dizer que a sátira não comporta profundidades é uma injustiça à sátira. Há sátiras e sátiras, e a de Prata é refém de nossos dias - refém da idéia de que a atenção de leitores apressados, que não lêem jornal e muito menos folhetins, precisa ser capturada a todo custo, nem que seja por intermédio de estímulos rasos e espetaculares, como numa novela de televisão.
- Livro ''Purgatório: a Verdadeira História de Dante e Beatriz'', de Mario Prata. Editora Planeta, 272 págs, R$ 39.90


