Irons e o fruto proibido
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quarta-feira, 18 de março de 1998
Ricardo Bairos Planet Pop-AE 
DivulgaçãoJeremy Irons (na foto com Genviev Bujold em Gêmeos, Mórbida Semelhança): Acho absurda a reação de pessoas que não viram o filmeJeremy Irons luta contra a hipocrisia de Hollywood. O ator, que acaba de chegar às telas americanas em O Homem da Máscara de Ferro, aproveita todas as oportunidades para falar de Lolita, o polêmico filme de Adrian Lyne baseado no romance de Vladimir Nabokov. A produção não foi lançada nos Estados Unidos (nem no Brasil), por conta de muitas críticas sobre a história de Humbert Humbert (papel do ator inglês).
O personagem do escritor russo, em 1947, casa-se com a burguesa Charlotte Haze (Melanie Griffith) para ficar próximo de sua filha de 12 anos, Lolita (Dominique Swain). Quando sua mulher morre, ele passa a ter relações sexuais com a menina, enquanto os dois viajam pelos Estados Unidos de carro. Em 1998, a pedofilia é mais polêmica do que em 1962, quando foi lançada a versão de Stanley Kubrick para o mesmo romance, com James Mason e Sue Lyon nos papéis principais.
O filme deu o azar de ficar pronto há pouco mais de um ano, quando a morte da menina JonBenet Ramsey, nos Estados Unidos, e a série de assassinatos de crianças cometidos por um pedófilo, na Bélgica, tomaram conta das manchetes dos jornais. A complexidade do personagem de Humbert, o narrador da história, é demais para o público norte-americano. Os representantes dos estúdios dão a desculpa de que o filme é ruim, daí não haver interesse em lançá-lo nos cinemas.
Para os chefões de Hollywood, Lolita nada mais é do que um filme sobre sexo com menores. E ninguém quer bancar a polêmica, principalmente porque ela não é sinônimo de lucro. Há a possibilidade de que o filme vá direto para a TV, para o canal por assinatura Showtime. O diretor tenta convencer o estúdio francês Pathé, o produtor do filme, de que é importante vender os direitos nos Estados Unidos para algum distribuidor independente, mas ainda não foi tomada nenhuma decisão. De alguma maneira, a gente perdeu a confiança na maturidade do público, de que as pessoas vão ver certo comportamento em um filme e serem capazes de julgá-lo, afirma o ator.
Jeremy Irons, o gentleman de Hollywood, respeitado por suas atuações em filmes como Gêmeos - Mórbida Semelhança, M. Butterfly e Perdas e Danos, também luta por justiça no papel do mosqueteiro Aramis em O Homem da Máscara de Ferro, que mediu forças com Titanic nos Estados Unidos. O primeiro longa-metragem de Randall Wallace, roteirista de Coração Valente (com Mel Gibson), arrecadou US$ 17,5 milhões em seu fim de semana de estréia nos cinemas norte-americanos, o mesmo valor da produção de James Cameron.
Em comum, os dois filmes têm Leonardo DiCaprio, o astro do momento em Hollywood. O trunfo de O Homem da Máscara de Ferro (que tem estréia prevista para 17 de abril nos cinemas brasileiros) é mesmo o elenco. Também estão no filme John Malkovitch, Gérard Depardieu e Gabriel Byrne. Em entrevista à Planet Pop, Jeremy Irons fala de Lolita, compara os Estados Unidos e a Europa, conta como foi trabalhar com tantos astros, discute a carreira de Leonardo DiCaprio e muito mais.
Como é ter de falar sobre Aramis e O Homem da Máscara de Ferro agora e saber que Lolita não foi lançado?
Jeremy Irons - É difícil. Eu acho mais interessante falar sobre Lolita, há mais assuntos. É um filme que me envolveu mais, eu sou o sujeito, levou mais tempo para ser rodado, eu me sinto mais parte desta produção. E acho absurda a reação de pessoas que não viram o filme, que têm opiniões sobre se ele deve ou não ser lançado. É uma área toda diferente. O Homem da Máscara de Ferro é um aventura maravilhosa, em que eu faço um papel relativamente pequeno.
Você faz alguns filmes apenas pelo dinheiro e outros pela arte?
Jeremy Irons - Não, eu preciso do dinheiro para viver, então vou sempre pelo dinheiro. Mas não apenas pelo dinheiro. No início da minha carreira, fiz um papel apenas pela grana, era um drama no teatro. Eu tinha largado meu papel, eles vieram para mim e disseram que precisavam de alguém para mais quatro meses de temporada. Eu não queria fazer, então pedi uma quantia ridícula de tão alta. Eles pagaram (risos). E eu ficava lá no palco, ainda faltam 15 minutos, não tinha como ir embora.
Como está a polêmica de Lolita?
Jeremy Irons - O filme foi lançado em muitas partes da Europa, vai estar na Grã-Bretanha em maio. Acho que sem cortes, está com a censura agora. Não há nada problemático nele, a não ser o tema. É um conto sobre moralidade, daqueles em que as pessoas vivem de maneira diferente da maioria, como em Édipo, como tantas histórias do passado. De alguma maneira, a gente perdeu a confiança na maturidade do público. De que as pessoas vão ver certo comportamento em um filme e serem capazes de julgá-lo. Eles acham que as pessoas vão fazer exatamente o que vêem nas telas.
A pedofilia é um tema muito polêmico ultimamente, principalmente na Europa. Por que o filme foi lançado lá e não nos Estados Unidos?
Jeremy Irons - Na Europa, há muita perspectiva histórica. A gente sabe o que garotos de 14 anos faziam na Roma Antiga, o que eles ainda fazem no Marrocos. Na África, muitas garotas perdem a virgindade com seus pais. A gente entende de história um pouco mais do que os americanos. A América é um lugar muito isolado. Muita gente não sabe onde fica Paris, outros acham que Hong Kong é no Japão. A América é isolada, porque é muito grande. Não tem tanta história. Na Europa há mais conhecimento de como foi em outras épocas, de como é em outras culturas. Há uma atitude mais madura em relação a aberrações. Alguns, em vez de madura, dizem decadente.
Como está a situação de Lolita nos Estados Unidos?
Jeremy Irons - Há rumores de que ele vai ser lançado, mas não tenho certeza de que vai chegar aos cinemas, pode ir direto para o vídeo ou a TV. Eu sugeri ao pessoal do estúdio que a gente devia pegar os grandes escritores deste país para escrever sobre o filme e sobre o que é aceitável no cinema, promover um debate importante. Eles decidiram que não, não sei o que estão fazendo agora. Ele estão morrendo de medo, acho que não merecem o emprego que têm (risos).
A versão de Randall Wallace de O Homem da Máscara de Ferro é muito diferente do livro de Alexandre Dumas.
Jeremy Irons - O final de DArtagnan no filme é invenção completa de Randall. A versão filmada do romance ia ter mais de 15 horas, com certeza. É necessário cortar muitas das histórias paralelas e centrar o filme no que é interessante na história. Para ele, é irmandade, lealdade, amizade, amor, todo esses idealismos. Para muitos dos outros temas, como a luta entre a espiritualidade e o mundo carnal para Aramis, não há espaço. Assim como Dumas pôs a sua versão da história do Homem da Máscara de Ferro no romance, Randall colocou no filme sua própria versão do livro de Dumas.
O que atraiu você para o filme?
Jeremy Irons - O que me atraiu é que é uma ótima história, uma aventura excelente. O roteiro - porque eu nunca li o livro. Eu comecei quando a gente estava filmando, para ver se conseguia alguma coisa a mais sobre o personagem, mas descobri que tudo era tão diferente. Não ajudava. Se você faz um filme que é uma adaptação de um romance, como A Mulher do Tenente Francês, certamente, você volta, lê três páginas e sabe que é importante para fazer alguma cena. Um romancista é capaz de expandir o conceito. Mas as tramas de Dumas são tão intrincadas e tão diferentes das do filme que não faz sentido. O livro é levado muito mais pelos acontecimentos, não há tanta descrição dos personagens. Eu não podia usar o que havia sobre Aramis no livro.
Com tantos atores importantes no elenco, é possível dizer que você aceitou o papel para poder duelar, competir com eles?
Jeremy Irons - Você está errado! Olhando para trás, eu fico pensando em como não me preocupei com os egos. A gente está acostumado a estar nos filmes e ser o sujeito, neste filme Leo (Leonardo DiCaprio) é o sujeito. A gente era a unidade de apoio (risos). Foi ótimo, não precisávamos carregar o filme, estávamos livres para ser menos responsáveis. Nosso trabalho era criar uma história entre nossos personagens, não-falada, de irmandade. Então a gente passou a maior parte do tempo praticando esta irmandade (risos). Longe das câmeras.
Que parte da sua personalidade ajudou mais em sua carreira?
Jeremy Irons - Acho que eu escolho bem, sei onde quero chegar e como chegar lá. Eu tomo decisões, faço escolhas. Também sei onde não quero chegar. Eu não gosto de trabalhar tanto (risos), tenho outras coisas legais para fazer na vida. Não vejo a carreira de ator com a coisa mais importante. Não me preocupo com essa coisa de ficar rico e famoso. Já estou rico e famoso o suficiente para o meu gosto. Eu sou um homem que diz o que está pensando, o que é um pouco perigoso neste negócio.
Você parece que evita esssa coisa de astro.
Jeremy Irons - Eu não dou muito valor para isso. A fama é uma coisa invasiva, é mais gente que conhece você do que gente que você conhece. Ser astro é levitar nesse nível de pessoa irreal. Para mim, é muito importante estar no nível das pessoas reais, porque eu tenho de interpretar papéis de pessoas verdadeiras, eu tenho de me comunicar com elas. E eu não gosto de ter meu tempo tomado por pessoas que eu não conheço. Quando não estou no set, quero estar com pessoas normais, como meus amigos, que levam vidas de gente normal. Ser astro traz apenas a vantagem de você poder escoher melhor seus papéis, ter ofertas melhores.
Fazer várias pessoas no cinema, no teatro, pode ser uma experiência esquisita? Como foi trabalhar em Gêmeos - Mórbida Semelhança?
Jeremy Irons - Não, eu me sinto muitas pessoas na vida. Eu sou uma pessoa aqui, acabei de almoçar com alguns amigos, era outra pessoa lá, olhei várias vezes para a garçonete, que era muito atraente. Lá, era outra pessoa (risos). Há muitas pessoas dentro da gente. Para fazer gêmeos você escolhe dois lados que você quer trabalhar.
Por que você virou um ator?
Jeremy Irons - Eu queria ser um pouco cigano, queria ficar fora da sociedade. Fui educado de uma maneira muito conservadora, muito classe média. Achava a maioria das pessoas que estavam perto de mim muito chatas. Achava o meu possível futuro bastante chato, não via nada que me interessaria. Eu não queria fazer negócios, trabalhar em banco, ir para o Exército. Queria ficar longe de tudo isso, ser um vagabundo. Como ator, eu podia ter minhas próprias regras, viver do meu jeito. Li muitas biografias de atores, eles tinham essas características, nunca pareciam ser muito socialmente aceitáveis. Não eram gente que você gostaria que cassase com a sua filha (risos).
Você acha que Leonardo DiCaprio vai ser engolido pelo estrelato?
Jeremy Irons - Não acho que ele vai deixar isso acontecer. É muito maduro. Por trás de toda esta coisa de Leo, tem um garoto legal, e ele tem muita gente boa em volta dele. Acho que não vai mudar por causa de toda essa adulação. Ele é apenas um ator que trabalha duro. Sua carreira vai ser muito forte.
Você fez gêmeos no filme de David Cronenberg. Deu algum conselho para Leo sobre os papéis dele?
Jeremy Irons - Não. No primeiro dia, a gente conversou um pouco. A única coisa que eu disse para ele é que o truque é fazê-los iguais e não diferentes. Quando fiz Gêmeos - Mórbida Semelhança, perdi uma semana tentando fazê-los diferentes e depois vi que era uma besteira. Como duas pessoas tão diferentes podem ser gêmeos idênticos (risos) ? Eu vivi essas duas pessoas por suas ações, por suas atitudes, apenas por aí eles pareciam diferentes.


