O amor, esse caudaloso oceano de contradições e certezas, está em cena no palco do Teatro Fernanda Montenegro, neste final de semana. Por coincidência a sala que leva o nome da atriz exibe como cartaz a comédia ‘‘É!..’’, escrita por Millôr Fernandes especialmente para Fernanda há 23 anos. A montagem foi um estrondoso sucesso durante quatro anos.
Depois disso, até 1996, permaneceu intocada. Até Elizabeth Savalla decidir-se a encarar de frente o mito, tirá-la do passado e trazê-la à cena. Millôr atualizou alguns pontos, Camilo Áttila cuidou da adaptação e direção e a partir daí ‘‘É!..’’ vem arrancando risos e aplausos em todo o Brasil. Já passou por cidades paranaenses e finalmente pisa em solo curitibano.
Sucesso de público e crítica – ‘‘na melhor atuação de sua carreira, Elizabeth Savalla está irrepreensível na pele da atormentada e irônica Vera’’, escreveu o crítico Lionel Fisher –, o espetáculo fisga a platéia no ponto mais ponderável: a separação de um casal que tem às suas costas 22 anos de vida em comum.
Como nos casos de paixão não se pode dizer que dessa água não beberá, o que acontece é a reviravolta na vida de Vera, mulher de 42 anos, bonita e conservada, que de uma hora para outra se vê trocada por uma jovem que poderia ser a sua filha. Ou filha do seu marido, agora seu amante. Esse choque é acompanhado pelo público que se diverte com a fina ironia das falas e das situações criadas pelo autor.
Sem ser complacente com o homem, Millôr Fernandes criou um texto onde o deboche é a matéria-prima de Vera. ‘‘Meu personagem trabalha com o deboche o tempo todo. A platéia se identifica com o que se passa no palco e ri de si própria’’, diz Elizabeth Savalla. Para ela não está em jogo apenas a troca de uma mulher de 42 anos por outra de 22. A troca em si é que mais machuca:
– Se é difícil saber lidar com a perda, com a rejeição é pior ainda. Mas um homem que faz esse tipo de escolha por uma menina, merece exatamente isso... Ele quer uma de 20, que está com tudo em cima, e pensa que vai funcionar como se fosse um garotão da mesma idade? É inevitável: vai levar chifre.
Na comédia Elizabeth é Vera, dona de casa elegante e refinada; Mário (Carlos Capelety), seu marido, professor universitário do tipo liberal, mas que em casa assume a postura de conservador. Eles se relacionam com o casal Oto (Janser Barreto) e Ludmila (Kátia Sassem); o rapaz foi ex-aluno de Mário e agora é seu colega, e a jovem esposa se interessa pelo homem maduro. Sara (Carolina Abranches) é amiga das duas rivais.
Adepta da filosofia de que ‘‘a natureza é sábia’’ e é ‘‘bonito envelhecer com dignidade’’, Elizabeth está fora do figurino das mulheres que escolhem garotões como parceiros. ‘‘Tenho filhos de 24 anos, não iria querer um de 26’’, afirma. Ela imagina que a diferença de idade – e até de geração – cria uma insegurança constante da velhusca com o mundo jovem à sua volta. Ou melhor, à volta do seu parceiro. ‘‘Prefiro não correr essa preocupação. Ainda acho que tem sempre um chinelo velho para um pé cansado. Não um Ortop钒.
E é com essa comédia que coloca a nudez dos relacionamentos sob os refletores, que ela tem percorrido o Brasil. Savalla é da opinião que ser ator é uma missão, e portanto deve-se ir, inclusive, a lugares onde o teatro nunca chegou. ‘‘Temos que mostrar a nossa arte a quem não sabe. Esse é o teatro que gosto de fazer. Estivemos no Teatro Bibi Ferreira, temos viagem marcada para Miami, Nova York e Boston, e quero ir a Toledo, Campo Mourão, Pato Branco’’.
Esse roteiro no Paraná ela já fez, incluindo outras cidades. ‘‘Só quem foi a Francisco Beltrão sabe o carinho daquele povo. Ficar em São Paulo e Rio não é conhecer o Brasil’’.
Nessas andanças paranaenses a companhia Savalla & Átilla apresentou-se no ginásio de esportes de uma localidade onde o telefone celular não funciona. Para se comunicar os atores tinham que ir a uma encruzilhada. No início do espetáculo, quando a platéia ouviu o pedido ‘‘desliguem seus bips e celulares’’, caiu na gargalhada. ‘‘Eram mais de mil pessoas, mulheres com crianças no colo. Amaram a peça e é isso que eu gosto. Enfim, a missão do ator é essa: levar qualidade ao público’’.
• ‘‘É!..’’, de Millôr Fernandes, direção de Camilo Áttila. Com Elizabeth Savalla, Carlos Capelety, Carolina Abranches, Janser Barreto, Kátia Sassem. Teatro Fernanda Montenegro, hoje e amanhã às 21 horas; domingo às 19 horas. Mais informações pelo telefone (41) 224-4986. Ingressos: R$ 20,00 (sexta), R$ 25,00 (sábado e domingo).

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