É sempre agradável descobrir que há diretores com a coragem de desafiar o público ao expor personagens negativos diante dos quais é sempre difícil, impossível mesmo, estabelecer uma forma de empatia. Alguém como o diretor francês François Ozon e esta Angel Deverell, personagem do lançamento que leva seu nome, a partir de hoje em exibição na cidade (confira a programação de cinema na página 2). A despeito do batismo, ela pode ser tudo, menos o anjo do título.
Neste filme, baseado em romance homônimo de Elizabeth Taylor (nenhuma relação com a atriz famosa), escritora inglesa falecida em 1957 Angel é uma jovem sonhadora, filha de gente humilde numa pequena cidade da Inglaterra no início do século 20. Com uma paixão sem limites pela literatura, Angel tem ainda seu fértil imaginário em perfeita sintonia com uma enorme ambição. Sua fuga da realidade, e o encontro com o sucesso a qualquer custo vai se concretizar por meio de um editor que acredita no talento dela e decide publicar seu primeiro romance.
A partir deste momento, ela tenta administrar uma glória tão imediata quanto fugaz. Torna-se autora famosa, e o poder derivado da súbita riqueza não deixa espaço nem para o respeito e nem para o sentimento de culpa.
Para contar esta história de época ambientada no período edwardiano, François Ozon elegeu um estilo pouco realista como veículo de homenagem aos grandes melodramas de costumes da Hollywood dos anos 1940 - não por acaso surge diante do espectador a espontânea comparação entre Angel e a voluntariosa e frívola Scarlett O'Hara .
A impressão que passa é que Ozon sugere uma chave de leitura carregada de forte ironia, seja no confronto do personagem, seja no estilo em si (bastaria aqui atentar para a música, que parece comentar muitas sequências como se propusesse uma paródia do melodrama).
Observado neste sentido, ''Angel'' assume um foco extra de interesse, como uma reflexão sobre um certo tipo de cinema que vai desaparecer e sobre um certo tipo de ambição predatória, que não vai desaparecer...
A atriz Romola Garai, vista há pouco em ''Desejo e Reparação'', demonstra inegável coragem, mas compõe uma Angel em excessiva busca da perfeição formal, o que acaba sacrificando o personagem em termos de humanidade.

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