Escrevendo ensaios acadêmicos e textos críticos, Paulo Emílio Sales Gomes conseguiu uma reputação exemplar e consagrada. Ao completar 60 anos de idade, resolveu se aventurar na escrita ficcional e criou um peculiar livro chamado ''Três Mulheres de Três PPPês''. Ficou tão entretido com a experiência que entrou no estado de fascinação. Deixou claro que se soubesse antes como era interessante escrever ficção, não tinha perdido décadas e décadas com textos teóricos.
''Três Mulheres de Três PPPês'' foi publicado em 1977 pela editora Perspectiva e rapidamente caiu nas graças dos críticos. Professores e ensaístas estenderam um imenso tapete vermelho sob seus pés classificando a obra como um clássico, associando-o à arte de Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Nelson Rodrigues e outros figurões da literatura brasileira. Seis meses após o lançamento do livro e intensos paparicos, sofreu um ataque cardíaco e foi parar num túmulo da cidade de São Paulo.
Essa é a história que cerca ''Três Mulheres de Três PPPês'', único livro de ficção escritor pelo ensaísta paulista Paulo Emílio Sales Gomes (1916 - 1977). A obra acaba de receber uma nova edição pelas mãos da Cosac Naify, editora que promete reeditar as obras completas do autor ao longo dos próximos dois anos. Trata-se de uma edição coligida a partir de comparações entre os manuscritos e o texto da primeira edição acompanhada de uma fortuna crítica com ensaios e resenhas que abordam a obra.
''Três Mulheres de Três PPPês'' é formado por três novelas. Embora independentes, existem algumas conexões entre elas. Os três narradores, por exemplo, possuem o nome de Polydoro. Os três odeiam o próprio nome e fazem de tudo para ninguém faça uso dele. Os três vivem relações conturbadas com mulheres e esposas. São todos paulistanos que encarnam o chamado ''jeito paulistano burguês de ser''.
Através das novelas ''Duas Vezes com Helena'', ''Ermengarda com H'' e ''Duas Vezes Ela'', Paulo Emílio realiza uma sátira ao comportamento burguês dos paulistanos utilizando um humor mordaz. Utilizando um tom solene, espalha ironia em cada página, em cada acontecimento descrito, em cada vago pensamento. Geralmente as personagens procuram refúgio para suas respectivas artrites nos hotéis de Águas de São Pedro, fetiche de consumo paulista da década de 40.
A ironia também encontra território fértil nas relações amorosas e matrimoniais. As relações são desenhadas como jogos sentimentais onde tudo é calculado. Os acordos amorosos são estabelecidos muito mais por conveniência do que em nome do amor. Sempre há uma boa dose de veneno nas estratégias de convivência, seja por homens como por mulheres.
Marido da escritora Lygia Fagundes Telles, Paulo Emílio dedicou a vida à preservação da memória do cinema brasileiro. Considerado um mentor intelectual do Cinema Novo, no final da vida entrou nas águas da ficção para, segundo a lenda, conseguir alguns trocado num concurso literário promovido pelo Governo mo Paraná na década de 70. Lenda ou realidade o fato é que o ensaísta construiu uma obra personalista que permanece carregada de peculiaridades até os dias de hoje. As novelas de ''Três Mulheres de Três PPPês'' possuem uma engenhosidade bem-humorada que transparecem, no mínimo, que o autor se divertiu ao escrevê-las.



Fragmento:

Ao mover a cabeça, meus olhos abrangeram uma frase cuja última palavra me esbofeteou: ''Só mesmo um corpo como Polydoro''. O golpe me mechou os olhos. Nunca o nome execrado me agredira de forma tão traiçoeira. No caderno roxo, Hermengarda não escrevia sequer Poly, abreviatura que perdera a carga ameaçadora desde que num sonho amável ouvi sua voz repeti-la com carinho. E agora ela o escrevia inteiro. Mas por quê? Me veio a esperança de um erro de leitura, a frase parecia nem ter sentido. Abri os olhos e fui direto à última palavra. Não restava dúvida, lá estava o nome intacto, com todas as letras, não as caprichadas do caderno roxo, menores e corridas mas indiscutivelmente dela. Reli a frase e descobri com efeito uma palavra que dificultara a compreensão. Lera um ''p'' ao invés de ''n'', não era ''corpo'' que estava escrito mas ''corno'': ''Só mesmo um corno como Polydoro''.
Resolvi não me afobar.

(Fragmento de ''Três Mulheres de Três PPPês'' de Paulo Emílio Sales Gomes)



Serviço:

- ''Três Mulheres de Três PPPês'', de Paulo Emílio Sales Gomes. Editora Cosac Naify, organização de Carlos Augusto Calil, 200 páginas, capa dura, R$ 45,00.

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