A ironia e a irreverência são marcas registradas de José Wilker. Em poucos segundos de conversa, o ator de 53 anos deixa claro o jeito extrovertido e espirituoso. Com mais de 30 anos de profissão, Wilker recorre ao mesmo estilo cínico e debochado que o consagrou na televisão, no cinema e no teatro para dar vida a um novo personagem: o trambiqueiro Tarso, da novela ‘‘Um Anjo Caiu do Céu’’. Interpretar um vilão, aliás, é uma das razões que o motivaram a encarar a 29ª novela da carreira. ‘‘Os papéis convencionais são muito chatos e não me atraem’’, explica.
Na novela de Antônio Calmon, José Wilker está revivendo uma parceria com outro ator ‘‘top de linha’’ da Globo: Tarcísio Meira. Os dois trabalharam juntos na macrossérie ‘‘A Muralha’’, onde Wilker fez uma participação com Dom Diogo, governador da província de São Paulo. ‘‘É sempre bom trabalhar com quem realmente conhece o meti꒒, ressalta. Para Wilker, a novela tem tudo para repetir os mesmos índices de audiência da antecessora, ‘‘Uga Uga’’, que mantinha de 38 a 40 pontos no Ibope. ‘‘Já fiz muitas novelas em que meus personagens passavam incólume nas ruas. Esta é diferente. As pessoas vêm comentar comigo sobre o Tarso’’, conta Wilker.
Com 29 novelas no currículo, qual é o segredo para não ficar entediado com o trabalho?
O segredo é ficar descontente sempre. Sou muito crítico com tudo que faço. O meu olhar, então, é atraído não pelas qualidades, mas pelos erros que sempre cometo. Isto me faz ficar o tempo todo questionando e duvidando da minha capacidade. Não me deslumbro com o êxito. Caso contrário, me tornaria uma pessoa repetitiva e fatalmente me esgotaria com o tempo. Mas é evidente que o sucesso é gostoso e prazeroso. Agora, me submeter a isto é uma coisa doentia.
Em ‘‘Um Anjo Caiu do Céu’’, você volta a interpretar um vilão. Este tipo de personagem é mais saboroso de interpretar?
Eu me sinto mais confortável neste tipo de personagem do que no chamado ‘‘bonzinho’’. Os personagens normais não me desafiam e não me atraem.
Mas, em ‘‘Suave Veneno’’, sua última novela na Globo, você interpretou o chamado personagem convencional: no caso, o industrial Waldomiro...
Só que o Waldomiro me deu um imenso prazer. Ele não era exatamente um cara normal ou um vilão. Ele tinha uma certa complexidade e um senso de humor muito atraentes. O senso de humor, a perplexidade diante da vida, o despreparo para sentimentos simples, como o de se relacionar, por exemplo, eram características muito interessantes. Como o personagem, também sou nordestino.
Já com o Tarso, mesmo sendo vilão, você capricha na dose de humor e ironia. É uma forma de humanizá-lo?
Quando inicio um trabalho, a primeira coisa que procuro é me divertir. Acho que, deste modo, também consigo divertir o público. A intenção é que o Tarso se transforme naquele tipo de vilão que o público adore odiar. Principalmente porque o personagem, mesmo sendo mau, é um pouco ingênuo em suas armações. Mas é um cara que faz qualquer tipo de coisa para subir na vida. Ele é como muitas figuras que andam por este país.
O papel do Tarso foi primeiramente pensado para o Francisco Cuoco, não é?
É verdade sim. Só que ele não aceitou e não sei o porquê. Estava viajando pela Europa quando o diretor Dênis Carvalho me convidou para o papel. Ele já estava gravando a novela em Praga. Mas, como eu estava envolvido com outros projetos voltados para o cinema e teatro, não aceitei de primeira. Mas, depois, pensei que o papel fosse pequeno e que não iria trabalhar muito. Aí, resolvi aceitar. Mas acho que me enganei. O personagem ganhou grande destaque na trama.
Como está sendo este reencontro com Tarcísio Meira, com quem você trabalhou recentemente em ‘‘A Muralha’’?
A coisa mais difícil do mundo é trabalhar com atores inexperientes. Além de ser ator, você também se torna uma espécie de professor. E também tem de ter bastante paciência. Agora, quando você trabalha com um ator como o Tarcísio, que tem um grande conhecimento do metiê, é muito agradável. Você acaba batendo um bolão o tempo todo. E, além de ser uma pessoa a favor, o Tarcísio é um profissional qualificado.
Por que você não gosta de fazer laboratório para compor os personagens?
O melhor que o ator pode fazer para compor um personagem é simplesmente viver. Estar atento a tudo e apaixonado pela vida. Esta coisa do ator querer se transformar no personagem é uma grande tolice. A minha profissão é saber mentir. Daí, eu finjo que choro, que danço, que canto e procuro fazer com que o público acredite nisso. Só vou fazer uma preparação se, por exemplo, meu personagem precisar andar a cavalo. Aí, vou aprender a montar.
Quais as principais transformações que você presenciou nos últimos anos na televisão?
Do ponto de vista técnico, a televisão brasileira se tornou um fenômeno. Temos um arsenal de instrumentos técnicos de som, iluminação e estúdios à nossa disposição, que são impressionantes. Fora isto, evoluiu muito também no que se refere à interpretação.
Você já disse várias vezes que gosta de assistir a novelas mexicanas. O que realmente o leva a acompanhar essas produções que têm qualidade tão questionável?
Por ser justamente ruim, acabo me divertindo muito. Adoro acompanhar algumas produções para depois dizer: ‘‘É impressionante como eles conseguem ser tão ruins’’. Tudo isto me desperta um certo prazer. Talvez sádico, não sei dizer ao certo. Mas tem de ser muito ruim para eu assistir. Caso contrário, perde a graça.

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