Se você não é íntimo ou iniciado nas histórias em quadrinhos e seus super-heróis, precisa saber um detalhe antes de ir ao cinema a partir de hoje (veja a programação de cinema na página 2) para ver o megalançamento ''Iron Man'': o personagem criado por Stan Lee no início dos anos 1960 não vem de um planeta distante, não concentra poderes extraordinários porque se expôs à radiação e não age por vingança pela morte de pais ou familiares. Ele é apenas Tony Stark (Robert Downey Jr, em interpretação carismática que o devolve de vez ao primeiro escalão de Hollywood), playboy e bilionário dono das empresas Stark Industries, uma das maiores fabricantes de armas dos EUA.
Apenas Tony Stark? Vocês não perdem por esperar. O que ele utiliza com brilho é a inteligência, e só isso já o coloca patamares acima de congêneres - a avaliação, claro, é pessoal e intransferível, e passa ao largo da calçada da fama de outros super-heróis superdotados e superestimados. Bem, vamos do começo. Stark é sequestrado por milícias afegãs de difusas intenções - parecem apolíticos e nem surgem como islâmicos radicais com superlotada agenda terrorista. Parecem mesmo delinquentes genéricos (nos comic books da Marvel, anos 1960, Stark era capturado pelo Vietcong), só que querem porque querem que o sequestrado construa um sistema high-tech de mísseis.
O que eles querem é poder, e o que vão fazer com este poder continua em área nebulosa. Não há proselitismo sobre EUA ou o Grande Satã - nada de fato que acirre a ira de Alá e afaste as platéias muçulmanas das bilheterias, por obra e graça de um roteiro descomplicado que aposta no potencial de fogo desta comissão de frente que abre o ambicioso desfile de blockbusters da temporada de verão nos Estados Unidos - depois chegam Indiana Jones, Batman, Múmia 3, Viagem ao Centro da Terra em 3D, mais Crônicas de Nárnia, Hulk 2 e Meteoro.
Mas em vez de fazer a arma para os sequestradores, Stark constrói uma armadura de ferro para ele mesmo: à prova de balas, com autonomia de vôo e dispositivo acoplado de lança-chamas. Impressionante o resultado, para somente alguns dias de trabalho. Ele usa o traje para fugir, e de volta aos EUA anuncia, em coletiva informal, que sua indústria está deixando de fabricar as lucrativas armas, decisão que toma quando descobre que seu armamento foi fornecido aos afegãos provavelmente por alguém de dentro da empresa (Jeff Bridges, careca e excelente).
A trama avança em ritmo adequado, com uma partitura de Hans Zimmer meio à moda John Williams a serviço de uma atmosfera espetacular - afinal, razão de ser do filme. Um filme de aventuras e ação que se amolda bem ao gênero, sem qualquer profundidade como era de se esperar, o que o transforma de fato no ''event movie'' tão badalado pela indústria hollywoodiana. O elenco está correto, com Gwyneth Paltrow radiante como a secretária-confidente-guarda-costas e namoradinha semi-platônica do super-herói. Samuel L. Jackson aparece em papel-surpresa e o ''pai'' de Iron Man, Stan Lee, comparece mais uma vez em participação especial. Os efeitos computadorizados, como sempre ainda melhores. E que bom ver um ótimo ator como Downey Jr. abrindo com louvor os créditos, e não como manchete de páginas policiais.

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