São Paulo, 06 (AE) - Um pênalti parado no tempo, suspenso no espaço por 20 anos. E decisões que dependem dele. É o centro dramático de "Iremos a Beirute", longa de estréia de Marcus Moura que estréia nos cinemas depois de passar na Mostra Internacional de São Paulo em 1998. Não é nenhuma maravilha e até pode ser demolido por quem estiver interessado somente em apontar suas falhas. Mas "Iremos a Beirute" possui qualidades regeneradoras para quem estiver disposto a garimpar o que há de positivo nas imagens assinadas pelo mestre fotógrafo Mario Carneiro. Merece ser visto.
Embora estreante no longa, Marcus Moura tem um currículo apreciável de curtas, que começou com "Panderos e Emboladas", em 1984. É o autor da história original e co-autor (com Orlando Senna) do roteiro de "Iremos a Beirute". É uma história realmente interessante. Desenvolve-se em dois tempos e espaços. Uma cidadezinha no interior do Ceará, nos anos 70, e Fortaleza, nos 90. A Beirute do título não é capital do Líbano e sim a mercearia de Gibran, que tem dois filhos, Aziz e Salma, e treina um time de futebol mirim.
Na história, Gibran faz uma aposta elevada em dinheiro quando seu time, o Ajax, enfrenta o Cruzeiro numa partida decisiva. O jogo também é fundamental para Salma porque ela, no ardor dos seus 15 anos, flerta com todos os rapazes e anuncia para o final da partida a sua decisão sobre com quem vai ficar. Uma morte interrompe o jogo que está empatado justamente no momento em que será cobrado um pênalti. Vinte anos depois, Salma defende uma tese sobre futebol. Ainda presa à decisão que deveria ter tomado no passado, ela consegue reunir os jogadores dos dois times para retomar a partida do ponto em que foi interrompida.
Há acertos indiscutíveis. O maior deles é a escolha do elenco, que faz com que os garotos do passado se assemelhem extraordinariamente aos atores que os interpretam quando adultos. Na retomada do jogo, o foco do interesse está em Salma, que vê, em montagem paralela, os jogadores de ontem e de hoje. Eles seguiram vidas diferentes. Um virou detetive particular, outro é empresário de sucesso na área de plásticos, o terceiro é ladrão de carros e o quarto permaneceu ligado à terra. O quinto, pois se trata de um time de cinco, é o irmão de Salma, Aziz.
É um filme que parte do futebol para falar sobre escolhas afetivas e sobre a atração do incesto, que o diretor trata com discrição, sem escândalo. Giovanna Gold é Salma, Ilya São Paulo é Aziz e Guilherme Karam rouba a cena como Gibran. Giovanna é linda. Pode não ser uma atriz excepcional (e não é mesmo), mas segura a intensidade dos momentos dramáticos e na cena do chador é perfeita. Não é difícil imaginar que o diretor talvez a tenha escolhido pela expressividade dos olhos.
"Iremos a Beirute" teve sua primeira exibição no 7.º Cine Ceará, em 1998, no qual ganhou a Mostra Internacional de Novos Talentos. Depois, incursionou por diversos festivais e mostras de cinema, no País e no exterior. O fato de estar estreando em apenas uma sala de São Paulo, quase dois anos depois da estréia nacional, ilustra bem as dificuldades que se oferecem para quem faz cinema no Brasil.