Filme-poema de Abbas Kiarostami surge como mais sério candidato aos principais prêmios do festival de cinema
France PresseAbbas Kiarostami: diretor iraniano pode levar o Leão de Ouro em Veneza com ‘‘Le Vent Nous Emportera’’, um filme que provoca indagações
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Veneza para a Folha2
Já entrando em sua metade final, a 56ª Mostra Internacional de Cinema tem agora candidato potencial na corrida aos Leões. ‘‘Le Vent Nous Emportera’’, embora sem grandes empolgações, é o filme que até o momento, oitavo dia de festival, reúne as virtudes necessárias para sensibilizar o júri. E pode dar ao iraniano Abbas Kiarostami seu segundo prêmio importante, depois da Palma de Ouro em Cannes-97 por ‘‘O Gosto da Cereja’’, lançado no Brasil inclusive em vídeo pelo selo Cult.
A expectativa de um acontecimento. Este é o argumento - se assim pode ser chamado - desta co-produção franco-iraniana realizada no Kurdistão. Como em outros filmes de Kiarostami, a trama é meramente um pretexto para uma série de encontros e reflexões filosóficas. A rigor não há propriamente uma história, e a principal característica da narrativa é provocar interrogações, hipóteses e alguns equívocos. O título se refere ao verso do poema de uma iraniana, Forough Farrokhzad, morta em acidente de carro em 67, aos 30 anos.
Um homem chega a uma vila dos confins do Kurdistão, a cerca de 700 quilômetros de Teerã. Com ele estão outros homens, de quem se ouve as vozes mas não se vê os rostos. Eles o chamam de engenheiro e ele não permite que se revele o motivo da visita. Na verdade ele é um documentarista, quer realizar uma reportagem, televisiva ou cinematográfica, não se sabe, sobre algum tipo de cerimônia fúnebre que é prática comum com os mortos do vilarejo. Uma mulher está para morrer. À espera dessa morte, o homem, o engenheiro, caminha pelo campo, encontra pessoas, conhece o local, as redondezas e convive com as pessoas. Todos os dias recebe a chamada da produtora do tal documentário, e para poder se comunicar via celular ele vai de carro e repete um cômico ritual até o alto de uma colina. Ao final a agonizante morre, mas uma série de circunstâncias impede que o documentário se consume.
É um cinema rigoroso, quase nunca anedótico e sempre contemplativo e belo, o de Kiarostami. E como de hábito o autor - certamente o único filósofo-poeta hoje em permanente atividade no cinema - ama jogar com elipses e metáforas, com ironia e lirismo. Com a mesma placidez encontrada em seu filme, Kiarostami diz que ‘‘Le Vent Nous Emportera’’ deve ser visto como palavras cruzadas: a partir de enunciados, indícios que ele fornece, o espectador vai preenchendo os espaços num processo criativo a quatro mãos.
‘‘Se uma história é completa, funcional em todos os detalhes, está consequentemente morta juntamente com o seu público’’, diz o diretor.

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