Curitiba - Ter um espaço próprio para desenvolver projetos culturais figura entre os sonhos de qualquer companhia artística que se proponha a realizar um trabalho sério. O problema está justamente em manter esse espaço sem ter uma contrapartida financeira ou qualquer tipo de apoio, seja estatal ou privado. A Fundação Cultural de Curitiba quer mudar essa situação e numa iniciativa inédita promete investir em projetos de quatro áreas artísticas, de nove companhias curitibanas. É o pontapé inicial para os grupos darem continuidade às pesquisas culturais já iniciadas ou ainda desenvolver trabalhos experimentais sem se preocupar em como pagar o aluguel no fim do mês.
O programa Residências Culturais do Novo Rebouças foi lançado em dezembro do ano passado, por meio de edital. Os grupos selecionados foram revelados nesta semana. As companhias vão se instalar em galpões no Bairro Rebouças, região meio esquecida da cidade, mas que a fundação pretende resgatar a todo custo. Os grupos escolheram imóveis do bairro, numa região previamente determinada, para desenvolver o trabalho. Para manter o espaço, vão receber recursos do Fundo Municipal da Cultural e em troca devem dividir suas experiências com a comunidade.
A idéia é que todos saiam ganhando: as companhias muitas órfãs e que finalmente ganham apoio do município e a população, que vai poder participar de cursos e oficinas artísticas sem custo ou com preço reduzido. São projetos na área de música, artes cênicas, audiovisual e arte e tecnologia. Cada área receberá um valor diferente entre R$ 54 mil e R$ 72 mil divididos em dez parcelas. A fundação vai acompanhar o desenvolvimento das propostas e caso o grupo não cumpra as contrapartidas à comunidade ou o projeto aprovado não seja cumprido, o contrato pode ser rompido.
No total, 17 projetos disputaram a aprovação. Os quatro projetos de arte-cênicas selecionados têm o desafio de envolver a comunidade em oficinas e propostas muitas vezes inovadoras. Formação de platéia; encontrar novos talentos; capacitar novos professores. Tudo isso está em jogo nessa corrida pela cultura. A companhia de teatro Os Satyros uma das selecionadas , por exemplo, quer dar continuidade a um trabalho desenvolvido desde 1996 e vai, literalmente, se mudar de ''mala e cuia'' para o bairro.
O grupo Os Satyros já tinha um espaço em Curitiba, na Rua Comendador Macedo, que será desativado em função do novo local. ''Queremos centralizar a comunidade do Bairro Rebouças ao nosso redor'', pretende Ivam Cabral, um dos diretores da companhia que divide seu tempo, ao lado de Rodolfo Garcia Vasquez, num braço da companhia em São Paulo e em outro em Berlim, na Alemanha. Ele aposta na questão da formação social para desenvolver o trabalho proposto pelo grupo. ''O teatro pode cumprir outras funções, não só a de formar atores, mas de formar cidadãos'', argumenta.
Cabral lembra que projetos semelhantes ao ''Residências Culturais'' existem na Europa e, mais perto, em São Paulo, onde a prefeitura apóia alguns grupos com uma quantia muito mais expressiva de R$ 400 mil e que dá possibilidade de manter uma equipe com uma estrutura garantida, independente de uma possível bilheteria ou mensalidades das oficinas. ''Em Curitiba, a verba é menor, mas já é um início e dá para desenvolver um bom trabalho'', diz. Para as oficinas de teatro, ministradas ao longo do ano, os Satyros vão cobrar R$ 40,00 mensais. Também vão montar, no final do projeto, o espetáculo Cosmogonia, que deve ter apresentações gratuitas para comunidade.
A Cia. Senhas, também na área de artes cênicas, quer desenvolver um projeto mais ousado. Inspirado nos Ditirambos, cortejos da Grécia antiga que comemoravam a colheira da uva, o projeto ''Festa Teatro Novo Rebouças'' prevê a realização de oficinas teatrais em conjunto com artistas plásticos da cidade. Para encerrar, um desfile com os participantes pelo bairro e uma visita até os outros espaços culturais contemplados estão previstos. A parceria vai ser feita com figurinhas carimbadas da cidade, como Efigênia Rolim e Hélio Leites.
As oficinas todas gratuitas contemplam materiais reciclados e passeiam pela construção de materiais cênicos em papel; confecção de chapéus e sapatos em espuma e alegorias para carrinhos de catadores de papel. ''Não queremos só fazer o teatro e ministrar as oficinas, queremos sensibilizar as pessoas para as artes'', explica Márcia Moraes, produtora e maquiadora da Cia. Senhas. O projeto vai contar com 16 pessoas. Sueli Araújo, diretora da companhia, vai coordenar as oficinas.
A proposta é trabalhar em conjunto com projetos da prefeitura que já existem, como o Empreendedor Social, Agente Jovem e Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PET), desenvolvido, entre outros locais, na favela da Vila das Torres. ''Como essa comunidade já está organizada fica mais fácil desenvolver as oficinas'', observa Márcia. O trabalho deve começar em abril e se estender até fevereiro do ano que vem.
Além da Cia. Senhas e Os Satyros, também foram contemplados pelo edital da fundação, o projeto ''Centro de Investigação do Movimento'', da Arco Produções Artísticas, que se propõe a criar um espaço de pesquisa para dança contemporânea, acrobacias, teatro e artes plásticas. A contrapartida também será a realização de cursos e apresentações para a comunidade.
Ainda na área teatral, o projeto ''Multiprocessador', da Portátil Produções Artísticas, prevê a criação de um núcleo de pesquisa de comédia, formado por 12 atores e coordenado pelo diretor, ator e autor Rafael Camargo. A proposta é realizar oficinas, leituras dramáticas, mostras de comédias, sessões de cineclube e festivais de monólogos. Todas essas atividades serão abertas ao público.
Os projetos na área de artes cênicas vão receber R$ 72 mil cada um e serão acompanhados pelo diretor Edson Bueno, responsável por informar à fundação sobre a operacionalidade da proposta ao longo de sua duração. Na área de audiovisual, os projetos Wcine e Olho Vivo, da Coelho Produções Artística, vão ser fiscalizados por Chico Nogueira, ex-diretor do Museu da Imagem e do Som, e vão receber R$ 60 mil cada um.
Na área de música, foram contemplados o projeto Casa da Família Horn, da Horn Produções Artísticas com a proposta de reunir os 11 músicos da família em um espaço para shows e criação de espetáculos abertos à comunidade e Fábrica de Letras e Música, da Associação Paranaense de Autores Independentes, que se propõe a desenvolver cursos de história da música, criação de letras e poesias e elaborar catálogos de compositores e escritores curitibanos.
Por último, será desenvolvido também o projeto Arte Tecnologia Central Homem de Ferro, do grupo Homem de Ferro Produções Artísticas. A proposta é criar um estúdio de audio para ensaios e gravações de música e produção de repertórios para os grupos Beijo à Força e Maxixe Machine, dentre outros. O grupo propõe ainda numa proposta bastante ousada a criação de uma rádio comunitária para o Novo Rebouças.
Desafio maior do que colocar em prática todos esses projetos será o da Fundação Cultural, de garantir que a contrapartida à comunidade seja cumprida e os espaços não se limitem a abrigar os egos das companhias.

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