Primeiro você precisa ficar famoso, muito famoso, só depois as pessoas começam a prestar atenção no que você tem a dizer. E se por acaso você, depois de incrivelmente famoso, não tiver nada interessante a dizer, basta dizer qualquer coisa.
A trajetória literária do escritor norte-americano Jonathan Franzen tinha tudo para seguir esse caminho. Quando publicou seu primeiro romance, ''As Correções'', em 2000, foi aclamado como a mais surpreendente revelação literária americana. Poderia perfeitamente ter embarcado na onda fama, mas gastou dez anos escrevendo seu segundo romance, ''Liberdade''.
Lançado no ano passado em seu país, o livro recebeu os mais rasgados elogios e se tornou o preferido da mídia. Ganhou o rótulo de ''livro do século'' graças ao típico e descomunal exagero egocêntrico americano. O século 21 ainda está nas fraldas e eles já escolheram a obra que melhor o representa.
Lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras, ''Liberdade'' traz todas as contradições contemporâneas dos Estados Unidos dentro de uma única família. Das representações coletivas às intimidades mais individuais. Aquele tipo de romance que procura retratar todas as entranhas de uma época, um panorama das últimas décadas e suas transformações desequilibradas.
''Liberdade'', por outro lado, também é um romance sobre o amor. Não o amor idealizado, mas o amor tumultuado que se tornou vigente nas últimas décadas. O mundo mudou, as relações mudaram, as pessoas mudaram, a cultura mudou. O amor, pelo contrário, continua o mesmo, o drama que sempre foi e ninguém sabe direito o que fazer com ele.
A trama criada por Jonathan Franzen coloca lado a lado o amor matrimonial entre marido e mulher, o amor fraternal entre dois amigos e o amor sexual entre duas pessoas. Nenhum deles aparece como sentimento já constituído, mas em construção e transformação. Tudo com cada indivíduo tentando encontrar seu lugar no mundo. Patinando, escorregando e caindo ao longo dos anos.
''Liberdade'' narra a história de Patty e Walter, dois jovens que se conhecem na faculdade e se casam. Ele se torna advogado ambientalista, ela abandona as quadras de basquete para cuidar da casa e dos filhos. Tudo parece o paraíso da família exemplar até a chegada da tempestade. Aos dois junta-se Richard, um roqueiro amigo de faculdade de Walter. Seu papel é apontar a fragilidade do paraíso, mostrar o caos e os instintos cruéis do mundo.
Parte do romance é o relato autobiográfico de Patty que, seguindo uma orientação terapêutica para superar a depressão, começa a colocar no papel sua história e sua leitura dos acontecimentos. A verdade como ela aparece em sua cabeça, com interpretações sem nenhuma pitada de açúcar.
Um dos méritos de Jonathan Franzen está em sua capacidade de conferir uma impressionante profundidade a seus personagens. Inicialmente apresenta um perfil dos personagens para depois, ao longo da narrativa, desconstruir esse perfil. Lentamente as figuras vão ganhando osso, músculo e pele, tornando-se reais em suas contradições e fragilidades.
Uma hora ou outra o mundo desaba. E da necessidade de reerguê-lo nasce a compreensão de a idéia de individuo é, no fundo, um drama limitado. As gerações que tiveram acesso a toda gama de liberdades individuais não encontrou solução para suas dores mais óbvias.
''Liberdade'' fala sobre isso. E entrega quase tudo mastigadinho. Jonathan Franzen coloca muito peso na explicação e pouco peso na sugestão. O grande momento de apogeu da narrativa está justamente nesses momentos em que o drama não é explicado, mas sugerido para leituras. Chamar o romance de ''livro do século'' não é exagero. É marketing.
Serviço:
Li­ber­da­de
Au­tor - Jo­na­than Fran­zen
Edi­to­ra - Com­pa­nhia das Le­tras
Tra­du­ção - Ser­gio Flaks­man
Pá­gi­nas - 608
Quan­to - R$ 46,50

  ‘‘E por que vo­cê es­tá fa­zen­do is­so?’’
  ‘‘Bom, ­Joey, acre­di­te vo­cê ou não, eu que­ro que vo­cê te­nha a vi­da que vo­cê ­quer ter. Por exem­plo, se vo­cê dis­ses­se a mim e ao seu pai que nun­ca ­mais que­ria nos ver, pe­lo res­to da vi­da, eu ain­da ia que­rer que vo­cê fos­se fe­liz?’’
  ‘‘Per­gun­ta hi­po­té­ti­ca, e mui­to bi­zar­ra. Não tem ne­nhu­ma ba­se na rea­li­da­de.’’
  ‘‘É bom sa­ber dis­so, mas não é o que es­tou que­ren­do di­zer. O que es­tou que­ren­do di­zer é que to­do mun­do ­acha que sa­be a res­pos­ta pa­ra es­sa per­gun­ta. Os ­pais são pro­gra­ma­dos a que­rer o me­lhor pa­ra ­seus fi­lhos, se­ja ­qual for a sua res­pos­ta. É as­sim que di­zem que é o ­amor, não é? Mas na ver­da­de, se vo­cê for pen­sar bem, is­so é uma cren­ça bem es­tra­nha. Em fa­ce do que sa­be­mos so­bre a ver­da­dei­ra na­tu­re­za das pes­soas. Egoís­tas, mío­pes, ar­ro­gan­tes e ca­ren­tes. Por que o sim­ples fa­to de ser pai ou mãe de al­guém, por si só, de al­gum mo­do tor­na­ria me­lhor to­da pes­soa que tem fi­lho? É cla­ro que não é as­sim.’’

(Frag­men­to de ‘‘­Liberdade’’ de Jo­na­than Fran­zen)

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