"Inventário das Sombras", do cronista José Castello, chega às livrarias em julho
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quinta-feira, 24 de junho de 1999
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 25 (AE) - A mídia quase sempre distorce a imagem do escritor, deixando-o deformado como as figuras refletidas nos espelhos dos parques de diversões. Raduan Nassar, aos olhos da mídia, é o nosso Salinger, embora seja o mais ruidoso dos escritores silenciosos. Manoel de Barros foi reduzido a um slogan, "o poeta do pantanal", por preguiça de seus interlocutores. Dalton Trevisan, involuntariamente, virou o vampiro de Curitiba. Hilda Hilst foi renegada e classificada de pornográfica.
Os exemplos são inúmeros, mas José Castello, colunista do "Caderno 2", do jornal "O Estado de S.Paulo" selecionou apenas 15 personagens direta ou indiretamente ligados ao mundo da literatura para revelar os escritores ocultos nos textos. Eles estão reunidos em seu quinto livro, "Inventário das Sombras", que a Record coloca nas livrarias na primeira quinzena de julho.
Castello esqueceu o sucesso e foi atrás dos conflitos íntimos desses homens e mulheres que vivem ou viveram entre escombros, secando num deserto de tártaros ou gritando nas praças para outros loucos. Assinando resenhas desde 1980, primeiro para a revista "IstoÉ" e agora como colaborador do "Estado", o colunista do "Caderno 2" reuniu, em seus 20 anos de atividade jornalística, centenas de depoimentos de escritores. Destacou 15 entrevistas no livro, que levou dois anos para ser produzido. Medo - Alguns desses encontros foram decisivos na vida do jornalista, como a traumática experiência com Clarice Lispector, que o achava muito medroso para escrever, ou a implacável perseguição de Nélson Rodrigues, que teria gostado tanto de uma entrevista sua a ponto de enlouquecer Castello com sucessivos telefonemas. Curiosamente, Castello incluiu no volume dois ensaios sobre homens que não produziram livros, João Rath, um jornalista morto de que bem poucos se lembram e Artur Bispo do Rosário, um homem esquizofrênico que produzia arte sem saber e cuja obra passou até pela Bienal de Veneza.
Rath jamais escreveu um livro em sua vida, mas contava histórias como ninguém. Bispo do Rosário passou sua vida bordando nomes e máximas como um mensageiro do Apocalipse. Além dos citados, Castello escreveu ensaios biográficos sobre João Antônio, Caio Fernando Abreu, Alain Robbe-Grillet, Hilda Hilst, Bioy Casares, Ana Cristina César, Saramago, Dalton Trevisan, Cardoso Pires, Nassar e Manoel de Barros. "O projeto inicial era outro, inluindo apenas escritores, músicos e artistas pásticos malditos como Caio Fernando Abreu, Ana Cristina César
Hilda Hilst, Hélio Oiticica e Renato Russo, mas percebi que era um tanto impreciso", conta o jornalista. Híbrido - Ele não queria tampouco escrever um outro livro de crítica literária, ainda que "Inventário das Sombras" seja suficientemente híbrido para incorporar tanto o lado ensaístico como jornalístico de Castello. O "inventário" fica por conta desse último lado. O livro pretende ser um balanço da vida do repórter literário, que foi atrás do inventor do nouveau roman, Robbe-Grillet, escondido num castelo perdido em Caen, e do português José Saramago na distante Lanzarote, antes de o escritor receber o Nobel de literatura no ano passado. Tais aventuras renderam grandes entrevistas, mas alguma coisa ficou de fora das páginas publicadas em jornais e revistas. Elas não dão conta de abrigar a solidão, o desespero e a perplexidade em que esses escritores vivem. Castello tentou encontrar esse lugar nas quase três centenas de páginas do livro.
"Às vezes é difícil explicar o desprezo de alguns escritores pela literatura numa página de jornal", justifica, lembrando que o escritor quase sempre trabalha numa zona sombria
distante do mundo das luzes, das homenagens e da imagem pública falsamente construída. "A literatura de João Antônio é suja como a de Celine também é suja, ou seja, contaminada por esse mundo de sombras". Para ele, o escritor há muito anunciara sua morte, finalmente registrada, como num filme noir, no interior de um quarto solitário, sem glamour. João foi encontrado com os pés descalços, um jogging surrado e uma camiseta velha, como o mais miserável entre os miseráveis. Salto mortal - Hilda Hilst, que foi uma bela jovem, hoje amarga a solidão da velhice num sítio, cercada por cães doentes e injustamente esquecida pelos leitores. Ana Cristina César deu um salto mortal e desapareceu como a sua poesia, hoje lida apenas por meia dúzia de intelectuais. Robbe-Grillet, que forjou uma revolução literária na França, vivia isolado em seu castelo quando Castello o redescobriu. O mesmo aconteceu com o português José Cardoso Pires, autor de "Alexandra Alpha". Ele se recuperava de sua primeira morte, aos 70 anos, vítima de uma rara doença que apagou sua memória, quando Castello o entrevistou, em Lisboa.
Esse capítulo mereceria um ensaio mais longo no livro de Castello, não só pela literatura de Cardoso Pires, morto de verdade no dia 26 de outubro de 1998, aos 73 anos. A sua é uma das mais estranhas experiências que um ser humano teve sobre o o planeta. Há quatro anos, numa manhã chuvosa de janeiro, ele acordou, tomou café da manhã com a mulher, abriu o jornal e acendeu um cigarro. Segundos depois já não se reconhecia e não recordava o nome de sua mulher. A "morte branca" de Cardoso Pires anunciava uma nova vida, algo becketiana, em que o escritor, longe de ser convertido por uma epifania, terminou seus dias como o pessimista que sempre foi.
Castello justifica o limitado número de páginas do ensaio de Cardoso como uma reação às biografias longas. Autor da biografia do poeta Vinícius de Morais, "O Poeta da Paixão" (Companhia das Letras), ele não pretende repetir a experiência. Dedica-se atualmente a um livro de contos, o maior deles sobre um médico homeopata, imobilizado pela velhice, que faz o balanço de sua vida. A metaforização da doença é ainda impensável. Por enquanto, o médico só foi esboçado. Castello não tem a mínima idéia de como essa história vai terminar.


