Inventário da loucura
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de fevereiro de 1997
Beatriz Velloso Agência Estado 
ReproduçãoO foco de O Senhor do Labirinto está na colônia Juliano Moreira, onde Bispo ficou internado de 1939 a 1989`Em 1983, a jornalista Luciana Hidalgo viu o filme Arthur Bispo do Rosário - Prisioneiro da Passagem, do cineasta Hugo Denizart. Na época, ela sabia pouco sobre a obra e a vida daquele sujeito que, internado há 40 anos num hospício, com esquizofrenia, fazia objetos de arte compulsivamente. Uma cena do filme foi a que mais chamou a atenção de Luciana. À certa altura, alguém cita Jesus Cristo e Bispo diz, com segurança: Está falando com ele. Agora, a jornalista lança a biografia Arthur Bispo do Rosário - O Senhor do Labirinto (Editora Rocco).
Luciana Hidalgo explica que Bispo teve uma trajetória difícil, não-linear, como se não quisesse deixar pistas. Ainda assim, ela conseguiu encontrar várias marcas de Bispo em suas pesquisas. Voltou à cidade onde ele nasceu muito pobre, Japaratuba, em Sergipe. Descobriu que o lugarejo é extremamente religioso e tem uma tradição antiga de bordados - dois elementos presentes na obra do artista. Seguiu também os passos de Bispo depois que ele veio para o Rio, onde trabalhou como marinheiro, técnico da Light (empresa carioca de eletricidade), marceneiro e vigia.
Mas o foco de O Senhor do Labirinto está na colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, onde Bispo ficou internado de 1939 a 1989, quando morreu. A jornalista passou um ano indo à colônia para conversar com internos, funcionários e gente que trabalhou lá quando Bispo era vivo. Descobriu que, entre os pacientes, ele era uma espécie de xerife e tinha privilégios. Ele chegou a ter dez quartos para guardar suas obras, podia ficar acordado após o toque de recolher e ajudava os enfermeiros quando outros doentes tinham surtos mais violentos, conta Luciana. E Bispo produzia sem parar. Assemblages, bordados que fazia com o fio azul de seu uniforme, instalações e montagens feitas com o que aparecesse pela frente: botas, pias, volantes de carro e principalmente pano.
Alucinação Toda essa produção, hoje tida como cult, para Bispo era um inventário das coisas que ele queria levar quando fosse encontrar o todo-poderoso. Bispo acreditava que o nosso mundo ia acabar e que ele mesmo iria governar o novo mundo, explica Luciana. Daí os nomes de gente e coisas que ele bordava nos panos, e que estão, por exemplo, no Manto da Apresentação, sua obra mais famosa. Era a roupa que ele queria usar quando passasse para o outro mundo.
Para ele, fazer aquelas coisas era uma obrigação, ele se dizia um escravo da Virgem Maria, lembra Luciana. Bispo garantia que ouvia vozes ordenando que trabalhasse, e para ele aquela atividade nada tinha de terapêutico ou prazeroso. Ele tinha de enumerar todas as coisas do mundo que queria salvar.
A biografia conta ainda passagens engraçadas da vida de Bispo e traz depoimentos de personagens importantes em sua vida: a família Leone, para quem ele trabalhava em suas saídas esporádicas da colônia; o casal de funcionários Iolanda e Miguel, de quem ele ficou amigo; e a então estagiária de psicologia Rosângela Maria Magalhães Gomy, única pessoa que Bispo deixava penetrar em seu universo.
Quando morava na colônia, ele não gostava de expor seus trabalhos e fazia de tudo para preservá-los das goteiras e da umidade dos quartos onde ficavam guardados. Hoje, a situação melhorou, mas ainda é preocupante. Várias peças foram restauradas pela Fundação Bienal de São Paulo para serem levadas à Bienal de Veneza, e mais algumas foram recuperadas por técnicos do Museu Nacional de Belas Artes, para a mostra O Navegante, realizada no final do ano passado.
Mesmo assim, nos 50 anos em que morou na Juliano Moreira, Bispo produziu muito mais do que isso. Seu acervo fica no Museu Nise da Silveira, dentro da colônia, e pertence ao Ministério da Saúde. Com os recursos que recebe, a colônia faz malabarismos para conservar o museu. A torcida agora é para que o esquizofrênico que foi artista sem saber e já é comparado a Andy Warhol e Marcel Duchamp consiga ter preservado seu universo de estandartes, panos e bordados. E para que o que está descrito na biografia de Luciana Hidalgo não desapareça.


