Inventando
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de setembro de 2018
Domingos Pellegrini 
Sem os inventores, decerto ainda estaríamos quebrando coquinhos com pedras, o que porém também não deixa de ser uma invenção. E meu amigo inventor me procura para divulgar seu último invento, esperando investidores na fabricação do que veio me mostrar:
- Um guarda-chuva que não fecha!
Realmente, pego, examino, é um guarda-chuva de hastes sólidas e firmes, em nada comparável com essas fragilidades que compramos por tostões. O tecido é forte, uma lona porém fina, e o cabo é de madrepérola, a conferir um charme antigo ao protótipo que ele passou dias montando numa serralheria. Apenas faço uma pergunta:

- Um guarda-chuva que não fecha não ocupará muito espaço?
- Ah-há! - ele já tem a resposta pronta: - Claro que ocupará mais espaço, mas para que fechar um guarda-chuva assim? É também uma peça decorativa, uma obra de arte, precisa de espaço para aparecer! Pois já em 1917 o Marcel Duchamp não inscreveu um urinol num concurso de arte e ficou famoso? Um guarda-chuva então tem muito mais status, até porque poderá ter tecido padronizado com cores e estampas a escolher, veja!
Mostra catálogo de estampas e desenhos, ilustrações do pop ao barroco.
- Se a pessoa quiser, poderá cobrir o guarda-chuva com foto de terra seca, por exemplo, assim fazendo até poesia: a terra a esperar chuva!
- Mas - insisto - um guarda-chuva sempre aberto não ocupará muito espaço ao menos em pequenos apartamentos e carros?
Ora... - ele pisca sagazmente - Não será um produto para carentes espaciais mas para gente de mente aberta e grandes espaços! As casas terão porta-guarda-chuvas, e o cabo, somente o pegador do cabo, será dobrável para caber na maioria dos porta-malas, tudo milimetricamente planejado!
Me calo diante de tanta ciência, e ele fala olhando longe:
- Você poderá emprestar seu guarda-chuva ao neto adolescente, sem receio de receber de volta em frangalhos!
Abre os braços:
- Crianças poderão pular do telhado com o guarda-chuva como paraquedas!
Vibra com os punhos cerrados:
- Assaltante de repente? Dá-lhe guarda-chuvada!
Põe-se debaixo do guarda-chuva e me chama para ver o acabamento, as hastes anti-furacão:
Pois sabe aquele vexame de pegar um vento no meio da tempestade e vapt, o guarda-chuva vira do avesso te deixando na chuva? Com este aqui, meu amigo, isso não acontecerá nem com furacão!
E sussurra:
- Além disso, não faço questão de mencionar até porque, apesar de ser o principal argumento de venda, é óbvio: é um guarda-chuva que você não, n-ã-o vai esquecer no caixa automático!
Concordo, realmente será difícil esquecer algo tão... tão peculiar.
- Peculiar? - ele se ofende - Você é um escritor e é só o que tem a dizer?!
Vai-se levando o guarda-chuva, não exatamente a tiracolo mas sobre o ombro, como o vagabundo de Chaplin levava uma trouxa na ponta da bengala. Mas logo me liga arrependido, pedindo desculpas e querendo novo encontro para mostrar desenhos do - inspirado por mim, adianta - seu próximo invento:
- Um guarda-chuva que não abre!

Notícia da Chácara
Transformações
Era um sítio cafeeiro, virou chácara suburbana, depois a chácara virou condomínio residencial. A igrejinha, ao fundo, hoje é usada como salão para assembleias. Mas a santa continua abençoando todas as transformações.


