A estréia do Free Jazz no Paraná, na noite de domingo, foi marcada pela invencionice, dramaticidade e intensidade nas apresentações. Hermeto Pascoal foi o primeiro músico que, em nome do free jazz, pôs os pés em Curitiba no belo palco do Canal da Música. Depois dele e de toda a carga de invenção, foi a vez de Dave Matthews Band colocar para dançar as 900 pessoas privilegiadas que viram as duas performances.
Antes de entrarmos na música, vale a pena lembrar algumas histórias que antecederam a negociação da vinda do Free Jazz para Curitiba. O espetáculo só veio para a cidade e para Porto Alegre, porque os artistas vão continuar a turnê pela Argentina e assim, foram ‘‘descendo’’ para o Sul do Brasil.
Marcelo AlmeidaDave Mathews Band: vocal usado com parcimônia e instrumental impecável no show de domingoQuando ficou decidido que viria para Curitiba, o primeiro local a ser consultado foi o Guairão, com seus mais de dois mil lugares. Mas o governo do Estado tinha o interesse de promover o Canal da Música, o mais novo teatro da cidade. Assim, a platéia foi reduzida para apenas 900 pessoas, que é a capacidade do local, aliás, um belo local.
Por fim, ontem mesmo, quando as pessoas chegaram para assistir aos espetáculos, mais uma surpresa, adolescentes menores de 18 anos não podiam entrar, porque o promotor do Free Jazz é uma marca de cigarro. Muita gente foi pega de surpresa e alguns pais tiveram que despachar os filhos para casa. Em nenhum momento na venda de ingressos ou na divulgação para a imprensa isso foi dito explicitamente, numa falha da organização.
Mas nada disso empanou o brilho das duas apresentações. Hermeto Pascoal junto com um quinteto de bateria, percussão, baixo, piano e sax, inovou já na maneira de apresentar as músicas. Uma mulher entrava no palco com um tosco cartaz escrito à mão mostrando à platéia os nomes das composições. Aí, desfilaram ‘‘Na Cancela’’, ‘‘Homenagem aos Bebuns’’ e outros nomes engraçados de músicas como ‘‘Jazzão’’ e ‘‘Entrando pelo Cano’’.
Tudo em Hermeto é criatividade, que aparece sempre emoldurada pela qualidade dos músicos e pela intensidade com que tocam seus instrumentos. E o bruxo usou sinos, garrafas, chaleira e tubos para mostrar seu som. A parte dos tubos com solo de chaleira foi simplesmente genial.
Hermeto mostrou seu lado mais brasileiro tocando forró, baião, samba, ciranda e outros ritmos, muitas vezes misturando tudo em uma só música. Mas mostrou também seu lado jazzy com as músicas ‘‘Jazzão’’ e no tributo que fez a Dizzy Gillespie.
Para encerrar a noite, fez a platéia cantar ao som de ‘‘Suíte Curitiba’’. Como ele explicou, fez uma música para cada cidade onde tocou neste Free Jazz. Infelizmente, como foi o primeiro show, não pode bizar, apesar de ter recebido calorosos aplausos, com o público em pé.
O músico americano Dave Matthews e a banda que o acompanha tiveram um dia intenso em Curitiba. Na tarde de domingo, foram ao Estádio Couto Pereira ver o Coritiba vencer o São Paulo e se classificar para a segunda fase do campeonato brasileiro. O jogo empolgou os americanos e, à noite, o baterista Caster Beauford, ainda vestia a camiseta verde-e-branca que tinha recebido da torcida coxa.
Mas a empolgação de Matthews custou uma ou duas músicas para o público curitibano. Ele, que durante o show afirmou que não sabia que se gritava tanto em um jogo de ‘‘soccer’’ (como os americanos chamam o futebol) estava visivelmente afônico e decidiu encurtar a apresentação para economizar a voz. Se economizou nas músicas, ele e a banda esbanjaram energia e intensidade, com toques de dramaticidade na apresentação.
Simpático e falante mostrou sua mistura de rock com folk e letras inspiradas que estão levando a banda a escalar as paradas de sucesso em todo o mundo. Sinal disso foi que em sua apresentação em Curitiba muitas das músicas eram cantadas também pela platéia. Essa mesma platéia foi convidada a dançar no final do show, e aceitou.
Com dois shows que se destacaram pela criatividade e intensidade nas interpretações, Curitiba ganhou duplamente. Primeiro com a vinda do Free Jazz e segundo com a chegada de um belo teatro, próprio para as apresentações musicais, embora necessite ainda de melhorias na sonorização, pois em alguns momentos a reverberação atrapalha.

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