A grandeza de gestos e falas de ''Inveja dos Anjos'' tem a capacidade de tocar na vida, despertando um sentimento invejoso da eternidade. O espetáculo do Armazém Companhia de Teatro do Rio de Janeiro, que está no palco do Teatro Ouro Verde hoje e amanhã, foi premiado com o Shell duplo: Melhor Texto para o diretor Paulo de Moraes e Maurício de Arruda Mendonça, e Melhor Atriz para Patrícia Selonk.
Se os anjos são eternos, a memória também tem a eternidade para lembrar. A peça, com quase 100 apresentações e seis meses em cartaz no Rio de Janeiro, traça uma reflexão sobre as relações familiares.
Companhia criada em Londrina, a Armazém nas últimas montagens trocou a dramaturgia própria por clássicos, como o brasileiro Nelson Rodrigues e o alemão Bertolt Brecht, de ''Toda Nudez Será Castigada'' e ''Mãe Coragem'', respectivamente, voltando para a parceria entre Moraes e Mendonça.
Na avaliação do próprio Moraes, depois de tanto tempo assinando juntos é difícil saber aonde começam as suas palavras e as de Mendonça.
''Acho que quando a gente trabalha com dramaturgia própria começa do zero e tem toda a responsabilidade sobre o processo. Em ''Toda Nudez'' você tem uma estrutura dramática complexa e que permite, como diretor, uma visão pessoal. A dramaturgia própria é mais que um exercício de estilo e estética. É um mergulho na pessoalidade, um mergulho dentro de você'', afirma Moraes.
Tendo como guia nesse mergulho autores como Gabriel García Marquez e Paul Auster, a Companhia chegou numa linha de trem - cenário que faz parte da memória do diretor, que nasceu em Cornélio Procópio, cidade cortada pela linha férrea.
Segundo Moraes, o trem na peça é uma condução do público para as coisas passando diante da vida. Uma poética que não é em demasia e só assim consegue ser crível.
''Acho muito interessante isso nos dois autores, que propõem um desafio diferente para cada ator. É maravilhoso ver o um consegue alcançar. O meu personagem foi um presente que ganhei e que faz pensar no diálogo que eu e Paulo temos depois de tanto tempo de montagens. A peça é a história de três amigos e a última a ser contada é a minha, a Cecília. No começo, eu somente ajudo a contar as histórias dos outros e, somente no final, a dela. É algo que não estou acostumada. Paulo me colocou um desafio grande'', afirma Patrícia.
No espetáculo, os sete atores estão inteiros, o que explica um pouco mais do sucesso da montagem.
''Um processo que para mim começou quando entendi que, às vezes, de uma forma esteriotipada de pensar, a gente lembra que teatro é feito de gestos teatrais e mais grandiosos. Eu já pude explorar tanto isso em cena, mas ao fazermos gestos menores, percebi que isso não vem do vazio. Vem repleto de uma vivência'', comenta Patrícia.
A obra foi indicada para todas as categorias em premiações e também pode ser conferida em DVD lançado pela companhia.

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