Intrépido trapalhão
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de julho de 1997
André Bernardo TV Press 
Renato Aragão está nas alturas. O humorista e mestre-de-cerimônias do Criança Esperança escalou o pico do Dedo de Deus, na Região Serrana Fluminense, para a abertura da 12ªedição do programa, que vai ao ar no sábado, dia 26. Não que esse tipo de feito faça parte de suas funções como embaixador no Brasil do Fundo das Nações Unidas para a Infância - Unicef - mas ele acha que é uma boa forma de chamar a atenção do público para os problemas dos menores de rua. Em 1991, Renato já havia lançado mão desse gênero de mise-en-scene quando galgou o Cristo Redentor, também para o Criança Esperança. O problema das crianças não é só do governo. É de todos nós. Se não houver mobilização, a coisa não funciona, adverte.
Este esforço é encarado por Renato como uma retribuição à atenção que as crianças sempre dedicaram ao seu trabalho. Mesmo sem programas inéditos no ar, ele continua angariando 16 pontos de audiência diários com as reprises de Os Trapalhões. Não foi à toa que ele recebeu carta branca para investir na adaptação dos grandes clássicos da literatura universal, como Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, e Os miseráveis, de Victor Hugo, que irá mensalmente ao ar na temporada 98 da Terça Nobre. O projeto é a sequência do especial de fim de ano Visita de Natal, de Leon Tolstoi que alcançou 35 pontos de audiência. O primeiro da lista será Oliver Twist, obra-prima do americano Charles Dickens. O livro conta a história de um garoto que luta para se libertar da opressão de um orfanato, explica.
Em 98, Renato Aragão pretende retomar também o cinema. Apesar de ter 19 entre os 50 filmes de maior bilheteria do cinema nacional dos anos 70 e 80, Renato abandonou as produções depois de Os Trapalhões e a árvore da juventude, de 1991, quando a crise pós-Plano Collor fechou salas pelo Brasil afora. Já em agosto, começa a filmar O noviço Trapalhão. Quero matar a saudade dos mais velhos, conquistar o coração dos mais novos e fazer rir os filhos daqueles que não perdiam nenhum dos meus filmes, anima-se o humorista.
Você acha que o assistencialismo de arrecadar dinheiro, como acontece no Criança Esperança, consegue resolver o problema dos menores carentes?
Renato Aragão - O Criança Esperança não é feito só para arrecadar dinheiro. Isso não resolve nada. O programa serve, principalmente, para chamar a atenção para o que está acontecendo com as nossas crianças. A prostituição infantil, por exemplo, cresce a cada dia. O pior é que a criança é a última a receber incentivo do governo. Isso porque criança não vota. Não interessa aos políticos. No Dia da Criança, porém, os deputados reaparecem, promovem festinhas e, depois, tornam a sumir. Hipocrisia acaba com o meu humor.
Você nunca pensou em se candidatar a algum cargo político?
Renato Aragão - De maneira nenhuma. Nem fala nisso porque detesto política. Não tenho o menor jeito para a coisa. Estou deixando de assistir aos noticiários porque não gosto de ver corrupção. Tem muito político com vontade política, mas tem muita gente que só quer saber de enganar o povo. Já recebi alguns convites, mas só faço aquilo que gosto. Se estou ajudando uma criança, é porque eu quero. Não preciso de divulgação. Quem faz caridade, não põe anúncio em jornal. Caso contrário, deixa de ser solidariedade e vira comércio.
Mesmo fazendo o que gosta, você permaneceu tanto tempo afastado da tevê...
Renato Aragão - Eu pensava e repensava a minha volta à tevê todos os dias. Mas chegava sempre à conclusão que Mussum e Zacarias eram insubstituíveis. Nós quatro formamos um grupo que entrou para a história da tevê brasileira. Eu afirmo isso sem nenhuma pretensão. No entanto, não tiro da cabeça a idéia de convidar outros integrantes para uma nova formação. Seria uma espécie de comédia de costumes. Mas a Globo pediu paciência. Tudo bem, eu espero. O programa poderia até se chamar A Turma dos Trapalhões, não importa. O importante é que Mussum e Zacarias entraram para a minha história. Não quero saber de esquecê-los.
- Enquanto espera sinal verde para um novo programa humorístico, você estréia um programa fixo em 98. Como surgiu a idéia de transpor clássicos da literatura para a Terça nobre?
Renato Aragão - Sempre tive esse sonho. No cinema, já fazia desde Ali Babá e os 40 ladrões e o resultado foi imediato. Na época, adaptei o livro Mil e uma noites e as crianças ficaram encantadas. Decidi guardar este trunfo na manga até o ano passado, quando surgiu a oportunidade de transformar o Visita de Natal, de Tolstoi, em especial natalino. A Globo gostou tanto da idéia que sugeriu de fazer um programa semanal. Toda semana é impossível. Resolvemos, então, fazer um programa mensal.
Você cogita a possibilidade de produzir estes especiais em película para facilitar a penetração do produto no mercado estrangeiro?
Renato Aragão - Produto para fazer sucesso no exterior não depende disso. Depende é da qualidade da narrativa. Quando o produto é bom, faz sucesso em qualquer idioma, rompe fronteiras. A Globo queria que os episódios da Terça Nobre fossem filmados em película. Mas rejeitei a idéia porque filmar em película é muito artesanal em comparação ao vídeo. As novelas da Globo, por exemplo, são todas gravadas em vídeo e fazem sucesso no mundo todo. Reconheço até que filmar em película daria um certo requinte aos episódios, mas acabaria não compensando.
O humorista Dedé Santana não participou do Visita de Natal. Você descarta a possibilidade de convidá-lo para participar dos próximos episódios da Terça Nobre?
Renato Aragão - Eu só posso falar por mim. O problema do Dedé é pessoal com a Globo e remonta há muito antes do especial de fim de ano. O Dedé continua participando dos meus filmes normalmente. Ele já está confirmado, inclusive, em O noviço Trapalhão, que começa a ser filmado em agosto. Entre nós não aconteceu absolutamente nada. Continuamos os mesmos parceiros de sempre. Tive até o cuidado de mandar um fax para todos os jornais, mas infelizmente só um deles se interessou em publicar.
Mesmo reprisado, Os Trapalhões continuam registrando 16 pontos de audiência. Que avaliação você faz dos demais programas humorísticos da tevê?
Renato Aragão - A tevê oferece opções de humor para todos os gostos. Eu, pessoalmente, gosto de assistir a todos. Mesmo porque esta é a minha obrigação. Sou um ator cômico que depende de uma determinada situação para fazer rir. Este é o meu estilo. Sou incapaz de pegar um microfone e fazer a platéia rir contando uma simples piada. Não sou um exímio imitador, por exemplo. Não sei fazer sátira política, como o pessoal do Casseta & Planeta, urgente!, mas adoro quem sabe. Eu acho que o programa A praça é nossa oferece um tipo de humor bastante parecido com aquele dos tempos dos Os Trapalhões, puro e direto. Cada um tem um estilo, mas eu aprendi a gostar de todos.
O ano de 98 marca também o seu retorno às telas de cinema. Qual será o grande trunfo de O noviço Trapalhão, o seu 39ºlonga-metragem?
Renato Aragão - Penso que o primeiro grande trunfo do filme será marcar o meu retorno ao cinema. Estava parado desde 1991, quando fiz A árvore da juventude. Mas não fui só eu que parei. Todo o cinema nacional parou. Se não fosse a Lei Rouanet, o cinema brasileiro estaria estagnado até hoje. O segundo trunfo é que O noviço Trapalhão está repleto daqueles ingredientes que o meu público adora assistir, como música, alegria e emoção. Quero matar as saudades do meu público e conquistar as novas gerações: os filhos daqueles que assistiam aos meus filmes.
Na atual fase do cinema brasileiro, o público já perdeu o preconceito de assistir a filmes nacionais?
Renato Aragão - Acho que sim. Eu, por exemplo, sempre enfrentei preconceito por parte dos intelectuais, que torciam o nariz para os meus filmes. Aí, eu pensava: Como posso fazer um filme que seja capaz de agradar à crítica? Confesso que tinha receio de perder meu público. Em 1987, tomei coragem e inventei de fazer Os Trapalhões no Auto da Compadecida, baseado na peça do Ariano Suassuna. A crítica aplaudiu de pé, mas a bilheteria não foi tão boa quanto às outras. Os meus filmes nunca foram feitos para a crítica mesmo. Pelo contrário. Faço filmes para o povo.
Em alguns de seus filmes, como Os vagabundos Trapalhões e A filha dos Trapalhões, você lançou mão de críticas de cunho social. Este engajamento político e social é obrigação de todo artista?
Renato Aragão - O artista não tem obrigação nenhuma. Eu é que gosto de vez em quando de tocar nestes assuntos. Sempre que tinha uma brecha, colocava algum tipo de questionamento na história. Mas sempre de forma subliminar, porque o povo não gosta de ter determinados problemas esfregados na cara. Sempre tomei cuidado para não fazer isso de forma professoral. Não estou aqui para ensinar ninguém a agir ou pensar. O problema é que eu sentia que tinha de fazer alguma coisa pelas crianças. E a única maneira que encontrei foi através dos meus filmes.


