Intimidade verde e amarela
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 25 de janeiro de 1999
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Na residência da senhora História os acontecimentos da esfera do privado sempre permaneceram de castigo, do lado de fora da casa de joelhos no milho. Há milênios os historiadores seguem as trilhas batidas, olhos sempre voltados para os acontecimentos da esfera do público.
Nas últimas décadas este quadro vem sofrendo algumas alterações. Os historiadores da chamada nova história (nouvelle histoire) começaram a dar atenção ao universo privado, aos pequenos acontecimentos que norteiam as relações entre o indivíduo e o mundo.
O exemplo mais famoso desta nova abordagem historiográfica foi a coleção História da Vida Privada, obra idealizado pelos historiadores franceses Philippe AriSs e George Duby. Dividida em cinco volumes, publicados originalmente no início da década de 80, a obra retratava a vida cotidiana do Império Romano aos dias recentes. Contando com um amplo leque de pesquisadores, a coleção inovava ao incorporar, numa narrativa paralela, uma rica iconografia.
Causando grande repercussão na Europa, os cinco volumes da História da Vida Privada chegaram ao Brasil entre em 1992, editados pela Companhia das Letras.
Estimulados pelo êxito editorial da obra, vários historiadores de várias partes do mundo começaram a desenvolver obras correlatas. Reconstituir uma história do âmbito privado se tornou um fértil território a ser explorado.
No Brasil as coisas não foram diferentes. O historiador Fernando A. Novais reuniu dezenas de pesquisadores e se lançou no desafio de escrever a História da Vida Privada no Brasil seguindo os mesmos moldes da coleção idealizada por Philippe AriSs e Georges Duby. Lançado pela Editora Companhia das Letras, o primeiro volume organizado por Laura de Mello e Souza, Cotidiano e Vida Privada na América Portuguesa chegou nas livrarias em 1997. Na sequência vieram o segundo volume, Império: a Corte e a Modernidade Nacional, organizado por Luiz Felipe de Alencastro, e o terceiro, República: da Belle Époque à Era do Rádio organizado por Nicolau Sevcenko.
O último volume da História da Vida Privada no Brasil, Contrastes da Intimidade Contemporânea organizado por Lilia Moritz Schwarcz, foi lançado no mês passado, colocando um ponto final na coleção. O mais extenso dos quatro volumes traz textos de um grupo multidisciplinar de pesquisadores, envolvendo antropólogos, historiadores, sociólogos, demógrafos e jornalistas. A época delimita parte do governo de Getúlio Vargas até chegar nos dias atuais. Entre os temas estão imigração, religiosidade, miscigenação, violência urbana, regime militar, família, televisão, política, capitalismo, etc.
Embora História da Vida Privada no Brasil tenha sido um dos empreendimentos mais importantes do plano historiografia brasileira dos últimos anos, a coleção não se apresenta como obra definitiva - e talvez nem seja este seu objetivo. O enfoque de seus textos não oferecem grandes novidades. Ao público leigo pode parecer acadêmico demais. Ao público especializado pode parecer desprovido de argumentos que exerçam a contraposição entre o privado e o público.
O grande e inquestionável mérito de História da Vida Privada no Brasil está em sua iconografia. Imagens e legendas trabalham com uma saborosa narrativa independente dos textos. Trata-se da primeira obra brasileira a trazer um amplo levantamento iconográfico de sua história.
História da Vida Privada - coleção dirigida por Fernando A. Novais, Editora Companhia das Letras. Volume 1 - Cotidiano e Vida Privada na América Portuguesa, organizado por Laura de Mello e Souza, textos de Fernando A. Novais, Laura de Mello e Souza, Leila Mezan Algranti, Luiz Mott, Ronaldo Vainfas, Mary del Priore, Luiz Villalta e István Jancsó, 553 páginas, R$ 48,00. Volume 2 - Império - A Corte e a Modernidade Nacional, organizado por Luiz Felipe de Alencastro, textos de João José Reis, Luiz Felipe de Alencastro, Katia M. de Queirós Mattoso, Ana Maria Mauad, Robert W. Slenes, Maris Luiza Renaux, Hebe M. Mattos de Castro e Evaldo Cabral de Melo, 525 páginas, R$ 48,00. Volume 3 - República: da Belle Époque à Era do Rádio, organizado por Nicolau Sevcenko, textos de Maria Cristina Cortez Wissenbach, Paulo César Garcez Marins, Zuleika Alvim, Elias Thomé Saliba, Marina Maluf, Maria Lúcia Mott, Nelson Schapochnik e Nicolau Sevcenko, 725 páginas, R$ 48,00. Volume 4 - Contrastes da Intimidade Contemporânea, organizado por Lilia Moritz Schwarcz, textos de Boris Fausto, Maria Lucia Montes, Lilia Moritz Schwarcz, Alaba Zaluar, Maria Hermínia Tavares de Almeida, Luis Weis, Elza Berquó, Esther Hamburger, Angela de Castro Gomes, João Manuel Cardoso de Mello, Fernando A. Novais e José de Souza Martins, 821 páginas, R$ 48,00.ReproduçãoFoto da capa de História da Vida Privada, Volume 4: Contrastes da Intimidade ContemporâneaPublicação do último volume de História da Vida Privada no Brasil encerra a coleção que joga luz na intimidade brasileira


