''O casamento é o lugar onde menos se faz sexo e, quando se faz, é o de pior qualidade''. A constatação da psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins a levou a escrever a matéria mais polêmica da revista Muito Prazer, cujo número de estréia acaba de chegar às bancas.
Regina é editora da publicação e autora da maioria dos textos da edição de lançamento. ''A Muito Prazer não tem paralelos no mercado'' diz ela. ''É uma revista dedicada exclusivamente ao comportamento amoroso e sexual, dirigida tanto a homens como a mulheres. É diferente de qualquer título de banca, porque o que existe por aí são revistas femininas que tratam do assunto superficialmente ou revistas eróticas masculinas. Nós procuramos abordar os temas com seriedade, profundidade e leveza''.
Regina explica que a publicação é uma expansão de sua atividade no consultório, onde atua há 29 anos como psicanalista e dez como terapeuta na área de comportamento sexual. Atuante em veículos de comunicação, ela apresentou durante dois anos o programa Sexcidade, na rádio Cidade, e manteve uma coluna dominical durante quatro anos no Jornal do Brasil, ambos no Rio de Janeiro.
Editora do site http://camanarede.terra.com.br, é autora ainda de três livros sobre amor e sexo. ''Esse tema atrai grande público'' afirma. ''Não é por acaso que as revistas semanais de informação periodicamente estampam o assunto na capa. As pessoas querem saber mais porque perdem uma enormidade de tempo de suas vidas sofrendo por causa de medos, culpas e vergonhas. Não tenho dúvidas de que a relação sexual-amorosa seja a maior fonte do sofrimento humano''.
O primeiro número da revista traz uma entrevista com o historiador inglês Theodore Zeldin, autor dos livros ''Uma História Íntima da Humanidade'' e ''Os Franceses e Conversação'' e considerado um dos 100 mais importantes pensadores vivos da atualidade numa lista promovida pela revista francesa Magazine Littéraire. Traz ainda enquetes, resenhas e artigos sobre ciúmes, profissionais da sedução, o retrato da mulher nas letras da MPB, a homossexualidade ao longo da história, assédio sexual e ejaculação precoce.
Entre os colaboradores destaca-se a presença do psicoterapeuta José Ângelo Gaiarsa, que escreve sobre frases feitas que povoam o imaginário popular, como a de que ''os homens são bem resolvidos sexualmente e as mulheres têm problemas''. Regina conta que as primeiras cartas e e-mails de leitores já chegaram à Redação, a maioria comentando seu texto ''Casamento ou Sexo?''. ''É o que mais tem provocado repercussão'' diz.
No artigo (leia um trecho nesta página), ela observa que a vida conjugal e o prazer sexual não andam juntos. No casamento, anota, o desejo diminui na inversa proporção em que vão aumentando o carinho, a solidariedade e o companheirismo. ''Essa é uma frustração muito grande'' explica. ''E os modelos tradicionais não estão dando mais respostas. A maioria das mulheres não têm tesão no casamento. Elas continuam amando seus maridos, mas não conseguem transar. Isso é uma coisa comum e ninguém fala. Quando escrevia minha coluna no jornal, recebia cartas de leitoras arrasadas achando que o problema era delas. Mas não é. O problema é o casamento''.
Regina acrescenta que sua intenção não foi apenas escrever mais uma matéria sobre o assunto: ''A idéia é que as pessoas possam refletir e tentem viver melhor. Quero contribuir para a mudança de mentalidades''. Muito Prazer chega às bancas pela editora Toque de Letra. No Paraná, será distribuída apenas em Curitiba e Londrina.


...''Na verdade, casamento e sexo nunca caminharam juntos. O casamento visava apenas à união econômica e política das famílias; o prazer nem era cogitado. A ausência de desejo no casamento só passou a ser problema quando, recentemente, o amor e a satisfação sexual se tornaram primordiais na vida a dois e se criaram expectativas em relação a isso. Mas, afinal, por que o tesão acaba?
A excessiva intimidade e familiaridade com o parceiro, associado ao hábito, têm uma parcela de responsabilidade. Entretanto, existe uma razão ainda maior para que no casamento o sexo se transforme em algo monótono e sem graça. É a exigência de exclusividade. A obrigação de um só poder se relacionar com o outro mina progressivamente a relação.
Por um lado as pessoas se sentem apaziguadas e seguras, acreditando que o parceiro nunca terá olhos para ninguém. Por outro, a mesma certeza de posse, que faz as pessoas se sentirem garantidas no casamento, leva à acomodação, inibindo o desenvolvimento de uma vida sexual prazerosa. Não existindo mais o estímulo da sedução e da conquista, o sexo vai se deteriorando.
Ao procurar uma saída para questão tão perturbadora, homens e mulheres ouvem de alguns profissionais sugestões que parecem fáceis: 'tem que ser criativo'. Os que afirmam isso parecem ignorar que somente um alto nível de desejo é que leva à criatividade, e não o contrário. Se uma pessoa não tem tesão pelo parceiro, a única coisa que ela quer é dormir. Desejo sexual não se força, existe ou não...''
(Trecho do artigo ''Casamento ou Sexo?'')

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