INTERVENÇÃO URBANA - Quando a 'loucura' vai às ruas
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segunda-feira, 01 de setembro de 2014
Ana Paula Nascimento<br>Reportagem Local 
Quem passou pelo Calçadão de Londrina há duas semanas pode até ter imaginado que estivesse assistindo a alguma intervenção teatral do Festival Internacional de Londrina (Filo), mas na verdade o que estava acontecendo era uma série de ações artísticas sobre o tema da loucura protagonizadas por um grupo de alunos do ensino médio do Colégio Sesi de Londrina.
O evento fez parte de um desafio proposto pela "II Olimpíada de Literatura", em que participam 58 unidades educacionais do Paraná vinculadas ao Serviço Social da Indústria (Sesi). Como incentivo à leitura, o projeto visa promover um desafio instigante para os alunos, abrindo caminho para a crítica, conhecimento de eixos culturais interdisciplinares e análises. O trabalho envolveu as disciplinas de português, arte e sociologia.
De manhã até o começo da tarde, os alunos surpreenderam quem passava pelo local. Uma garota descabelada, vestindo uma camisa de força, chamava a atenção. Um grupo de "cegos" tentando atravessar a Rua Professor João Cândido motivou a ajuda de outros transeuntes para que completassem a travessia. Em outro ponto, um aluno oferecia algumas notas de dinheiro de papel, mexendo com a curiosidade do público. Em um banco, uma senhora estava acomodada com um monte de bonecas. Transitando entre as pessoas, um outro aluno segurava um cérebro de cachorro. Sentado em um vaso sanitário, uma versão de "Nero" também provocou a curiosidade. Como forma de mostrar que a simpatia exagerada pode ser considerada loucura, alunos ofereciam abraços a quem passava.
TRÊS DESAFIOS
A Olimpíada de Literatura é composta de três desafios e elaborar uma intervenção urbana sobre o limite entre a sanidade e a loucura foi o segundo desafio cumprido pelos alunos, que deveria ser gravado para a realização de um vídeo para também captar a reação das pessoas. O trabalho de pesquisa envolve livros de literatura, textos teóricos e filmes, com reuniões realizadas no contraturno. O primeiro desafio envolveu a elaboração de uma revista sobre a condição humana. O próximo desafio será desenvolver um trabalho escrito sobre o gênero história e ficção.
"Como professora, o meu principal desafio é orientar a alunos a entender os eixos propostos e a interconexão entre as diferentes fontes de pesquisa, fazendo com que percebessem que a literatura vai além do livro em si, já que está relacionada com outras disciplinas e com a nossa vida também", destaca a professora de português Anahi Menon. Fizeram parte do trabalho de pesquisa o estudo da obra 'Elogio da Loucura', de Erasmo de Roterdã - que dizia que "a loucura é uma deusa que ajuda a tornar a vida suportável" - , 'O Alienista', de Machado de Assis e a obra de Bispo do Rosário, entre outras fontes. "Um outro aspecto trabalhado foi a 'loucura' na velhice, que de certa forma faria os idosos retornarem à infância como forma de enfrentar a velhice", acrescenta.
Segundo ela, o mais difícil foi adequar o tema ao gênero proposto da intervenção urbana, sendo que eles optaram por demonstrar a loucura com algumas caracterizações: a menina com vestido de festa representando a "loucura da seda", fazendo referência ao consumismo exacerbado; o garoto com o cérebro de cachorro para lembrar da genialidade artística do pintor espanhol Salvador Dalí. Uma caixa que solta balões coloridos também foi colocada no Calçadão para registrar a reação das crianças, que normalmente têm menos resistência a se entregar à surpresa.
PREMIAÇÃO
O melhor trabalho, envolvendo a pontuação dos três desafios, será contemplado com uma viagem dos alunos ao Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. O resultado será divulgado em novembro.


