Intérprete da contemporaneidade
Intérprete da contemporaneidade
O cantor e compositor, que foi expoente da vanguarda paulistana nos anos 80, se apresenta hoje e amanhã em Londrina
Nelson Sato
Josoé de CarvalhoItamar Asumpção: hoje na Concha Acústica e amanhã no CabaréA ambição estética é o traço comum dos modernos. Na MPB, tal distinção equivale, para alguns, a uma incômoda rejeição pelo mercado, o que transforma os mais inconformistas em mártires de uma causa ao mesmo tempo simpática e perdida.
O cantor e compositor Itamar Assumpção, 48 anos, é um deles. Com um pé na tradição e outro na contemporaneidade, imprimiu sua marca no começo da década de 80 combinando letras inspiradas, fusão de ritmos e melodias difíceis de serem digeridas à primeira audição.
Ele é um dos convidados do Festival Internacional de Teatro de Londrina, que lhe reservou duas datas na programação de shows: hoje Itamar se apresenta às 18 horas na Concha Acústica (Praça de 1º de Maio) e amanhã toca à meia-noite no Cabaré (Av. Celso Garcia Cid, 1.419). Vou mostrar minhas novas canções - anuncia.
A generosa agenda coincide com a boa fase atravessada pelo cantor e compositor, que este mês está em cartaz em São Paulo como destaque do projeto Rumos Musicais, no qual um artista é escolhido para ser o anfitrião de três noitadas, convidando outros músicos para dividir o palco durante os shows.
Anteontem seu convidado foi o londrinense Paulinho Barnabé (irmão de Arrigo), que tocou ao lado da banda Patife Band. Itamar anda empolgado com sua nova gravadora, a Atração Fonográfica, pela qual deverá lançar a trilogia Pretobrás - Por que Eu Não Pensei Nisso Antes vols. 1, 2 e 3. Acredita que conquistou a maturidade artística.
Agora me vejo em plena forma como cantor e compositor - diz. Cheguei naquele estágio dos músicos de jazz, onde você tem um tema e a cada noite vai interpretando de uma forma diferente. Neste momento estou preocupado em tocar com o Hermeto Paschoal, que atingiu isso há muito tempo. Ele é o melhor músico do mundo correspondendo ao que representa Pelé para o futebol.
Itamar avisa que o primeiro disco da trilogia já está gravado devendo chegar às lojas em julho. O Pretobrás reúne um vasto material - conta ele. Esse trabalho apresenta para o público um artista alheio a qualquer concessão ao mercado das abobrinhas. Além do repertório inédito, seu novo selo - conhecido por editar os discos da Funarte - já prepara o relançamento de toda a discografia do compositor em suas versões originais.
Para quem se perdeu tentando acompanhar sua trajetória, convém conferir os títulos: Beleléu (1980), Às Próprias Custas S/A (1983), Sampa Midnight (1986), Intercontinental! Quem Diria! Era Só o que Faltava!!! (1988), Bicho de Sete Cabeças vols. 1 e 2 (1993) e Ataulfo Alves por Itamar Assumpção pra Sempre Agora (1995).
O compositor lembra que o contrato com a gravadora só foi possível graças ao diretor artístico Wilson Souto, um dos sócios e seu amigo desde a época em que era proprietário da casa de shows Lira Paulistana no começo da década de 80. O Lira foi o centro da efervescência musical que trouxe à tona a chamada vanguarda paulistana da qual faziam parte nomes como Itamar e Arrigo Barnabé.
Ao falar da turma, Itamar revela ao mesmo tempo orgulho e amargura. Se você quer saber o que caracteriza a complexidade da composição moderna, você tem que passar por álbuns como o Clara Crocodilo (de Arrigo) e o Beleléu (de Itamar). Mas mesmo sendo considerada inovadora na cena pós-tropicalista, essa geração foi marginalizada. Eu mesmo, com mais de 15 anos de carreira, sou pouco lembrado para fazer shows. Nunca fui a Florianópolis, por exemplo, e só me apresento periodicamente em outras capitais.
Ele nota que o rótulo maldito, uma sina em sua trajetória, também é usado como argumento pelos empresários para reduzir seu cachê. Não sou uma inflação de custos, mas tenho preço - diz. É triste ver uma coisa fina ser tratada como mambembe. Eles acham que por sermos malditos, temos que baratear a produção. É um inferno.
Falando ainda sobre o rótulo que o acompanha, o músico atribui leviandade aos que o aplicam a artistas como Luiz Melodia, Jards Macalé e Jorge Mautner. Tudo o que não é o Tchan, tudo o que é complexo, tudo o que as pessoas não conseguem entender de orelhada passam a chamar de maldito e vanguarda. Isso atesta, na verdade, a burrice.
Usando ou não a etiqueta, os críticos sempre o saudaram quase que como uma unanimidade. Já no começo da carreira, em 82, faturou o prêmio Pesquisa no Festival MPB Shell da Rede Globo. Em 93, ganhou o prêmio Sharp na categoria melhor disco pop-rock com o álbum Bicho de Sete Cabeças Vol. 1. Dois anos depois foi eleito o melhor cantor da temporada pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
Mas apesar de ser identificado à sofisticação estética e a uma certa experimentação, o autor de Nego Dito prefere ser vinculado a linhagem dos compositores populares. Não foi por acaso que gravou há três anos o álbum Ataulfo Alves por Itamar Assumpção pra Sempre Agora, dedicado ao autor de Na Cadência do Samba e Saudades da Amélia.
O compositor popular é aquele que alcança os corações e as mentes das pessoas - proclama. O Ataulfo é o cantor do mundo, o que agrada tanto ao favelado como ao bem-nascido. Vi sua força durante um show em Cachoeira de São Félix (MG), quando comecei a cantar Na Cadência do Samba. Na verdade só comecei, porque o povo cantou sozinho.
É essa reação que ele certamente gostaria que ocorresse um dia em Londrina, onde deu seus primeiros passos na música no final dos anos 70. Para os dois shows na cidade, Itamar virá acompanhado da cantora Alzira Espíndola (irmã de Tetê) e da banda Pretobrás formada por Paulo Le Petit (baixo), Luiz Chagas (guitarra) e Gigante Brasil (bateria). Os ingressos para o Cabaré custam R$ 10,00.





