Para o visitante desavisado da Mostra Africana de Arte Contemporânea - em cartaz no SESC Pompéia, em São Paulo, até o dia 17 de setembro - que chega à exposição iludido pela visão exótica construída daquele continente, certamente o impacto do que ali está exposto colocará em xeque seu imaginário povoado de leões famintos e tribos perigosas de negros cheios de pintura pelo corpo, ameaçando a mocinha do cinema americano. Como aqui, lá também eles foram e são vítimas de todo tipo de agressões ao longo da história, mas ainda assim conseguem manter um diálogo profundo e uma resposta crítica ao mundo contemporâneo.
Há, nessa exposição, um discurso sensível aliado a uma poética agressiva que faz uso de meios tecnológicos, colocando a nu todo um sistema de dominação que tenta eclipsar as diferenças entre culturas e nações. E, ao mesmo tempo, dialogam com o que há de mais radical em linguagem artística.
Um desses trabalhos é a videoinstalação ‘‘Medusa Dreaming’’ de Kendell Geers, composta de aproximadamente 30 monitores de TV, colocados sobre um suporte de madeira de transportar eletrodomésticos, ao longo do laguinho artificial do galpão do Sesc, mostrando uma cena de um seriado de filme de terror americano, em que uma boca com a pele apodrecida ao seu redor, em close, repete um único e tedioso gesto de morder.
Explicar é destruir, mas não resistimos à tentação de entender uma obra que causa inquietação e até indignação pela maneira em que nos desloca o referencial que temos de arte e nos causa tanto estranhamento. É preciso compreendê-la para que seja deglutida pelos nossos sentidos. Devorá-la para não sermos por ela devorados.
Em se tratando de arte, algumas conexões sociais, culturais e geográficas podem ser feitas. Em primeiro lugar um título de obra remete a outro, histórico e clássico, que é ‘‘A Jangada da Medusa’’ de Gericault, obra do século 18, que retrata a cena histórica de uma balsa perdida em plena costa oeste do continente africano, cujos tripulantes europeus tinham vindo capturar escravos para levá-los em seu navio que havia afundado. Com fome, os tripulantes acabaram comendo a carne de seus próprios companheiros.
Eureka! Eis a arte contemporânea africana devorando os símbolos da indústria cultural. Ao usar imagens já prontas de cinema, recursos tecnológicos, meios industriais, o artista faz uma dura crítica a todo o desenvolvimento do progresso da civilização, desmacarando sua aparência de entretenimento inofensivo e demostrando sua face terrível de imposição ideológica, de dominação cultural. A escravidão só mudou a face.
Interpretar uma obra de arte requer o entendimento do contexto onde foi criada. Por isso, tomar ‘‘A Jangada da Medusa’’ para discutir o canibalismo imperialista, torna uma obra como ‘‘Medusa Dreaming’’, um emblema para nós, países ditos de terceiro mundo, para discutirmos os sonhos e os pesadelos que a indústria cultural quer perpetuar.

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