Os projetos sócio-culturais do Festival Internacional de Londrina – Filo – estão em plena safra. A Oficina de Máscaras na Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), direcionada aos internos, se encontra na reta final da produção de uma pequena mas significativa montagem teatral.
A equipe de reportagem da Folha 2 atravessou um detector de metais, nove grades, um alambrado e duas pesadas portas de ferro para acompanhar os ensaios da encenação a ser apresentada no próximo dia 12 de maio, Dia das Mães, nas dependências da PEL. Esse é um dia especial no calendário da instituição. No pavilhão 3, na sala de cultos, 10 internos ‘‘mandam ver’’ nas cenas.
A confecção de máscaras foi o ponto de partida para a adaptação do texto ‘‘O Pastelão e a Torta’’, pinçado da Idade Média, que o tempo fez cair no anonimato o verdadeiro autor da peça. O trabalho teatral apoiado na utilização das máscaras tem como coordenador o formando em Artes Cênicas da UEL Alexandre Mendes. Na arte das máscaras de gesso, argila e papel picado, é possível fazer emergir a auto-estima e a expressividade, imprimindo a identidade de cada um nos traços das máscaras. ‘‘Atuar com máscara requer um estado corporal mais alerta, exige mais expansividade do uso do corpo e na execução das ações’’, explica o diretor.
Alexandre Mendes aplicou exercícios de percepção corporal, jogos dramáticos e improvisação, para posteriormente inserir o texto e adaptá-lo, com intuito de obter uma encenação mais orgânica. Numa linguagem simples, a comédia medieval conta um fato social: dois famintos tentam enganar um pasteleiro e sua esposa para tentar saciar a fome e ganhar um pastelão. ‘‘Tem piedade, meu bom senhor, de um pobre fenômeno que tem fome duas vezes por dia e até três. Uma monstruosidade de natureza que tenho no estômago’’, diz um dos famintos no texto original. O diretor se valeu de elementos da cultura popular presentes no microcosmo da PEL – o rap e a capoeira – e intercambiou com situações da Commedia dell’Arte. Berimbau, timba e pandeiro conjugam com as batidas do rap os efeitos sonoros da encenação. A cultura contemporânea dialoga com a Idade Média.
O exíguo tempo de trabalho, somado a outras variantes, como transferência de internos e desestímulo pessoal, desafiam a execução da montagem. Um dos integrantes do grupo não leu o texto e argumentou: ‘‘não tenho tempo’’. Nos ensaios os atores sugerem como melhorar as cenas. ‘‘Acho que falta mais o trabalho corporal, as palavras estão por aquele caminho mesmo’’, afirmou Jonas Batista da Silva, numa autocrítica. Jonas integrou duas outras oficinas teatrais do Projeto de Maio e destaca a relevância de participar dessa edição: ‘‘ao invés de ficar no pátio sem fazer nada, prefiro adquirir cultura’’.
Defendendo os ideais da cultura popular/urbana, Redivaldo Ferreira faz parte do grupo Encarcerados do Rap, na PEL. ‘‘Essa vida é embaçada, crime não tá com nada’’, diz o rapper na abertura da peça. Outro integrante da trupe teatral da PEL, André Luis Moreira, afirma que com o teatro ‘‘podemos mostrar que somos capazes de alguma coisa’’. Depois das 16 horas, ele ensaia em frente ao espelho ou no ‘‘jegue’’ (cama).
Eder Roberto Konzen, em breve, será transferido para a unidade de Cascavel e pretende levar o aprendizado dessa oficina para lá. ‘‘Acho que com o teatro a gente aprende a perseverar. No dia-a-dia temos várias dificuldades e é preciso saber aproveitar as oportunidades’’, avalia. Silvio Soares, que participa das aulas mas não da montagem, sugere que deveriam prosseguir com mais cursos e oficinas de teatro na instituição. Entre preencher o tempo ocioso e procurar superar as limitações, todos estão na expectativa de uma apresentação irretocável para as mães, no dia 12 de maio.

mockup