Internos da PEL em nova montagem
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de novembro de 2005
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Há algum tempo, a prática do teatro instalou-se como uma atividade quase corriqueira na Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), que passou a abrigar tanto oficinas desenvolvidas pelo Festival Internacional de Teatro (FILO) quanto iniciativas independentes conduzidas por artistas locais com amparo do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic).
O projeto Criando a Liberdade encaixa-se neste segundo caso. Comandado há dois anos por Ed Sombrio, Letícia Ferreira e Ana Claudia Sardinha, voltou a animar o ambiente do presídio com uma nova montagem. O espetáculo ''O Rato, o Gato, o Cachorro e o Homem'', quarto trabalho deles, foi apresentado para parentes dos internos no último fim de semana.
Hoje será mostrado para a imprensa, convidados e comunidade em geral ligada à instituição. A nova peça é uma criação coletiva elaborada a partir de um texto-base de autoria do interno Alcides Domingos, também ator do espetáculo. O texto-base manteve a linguagem de fábula infantil adaptada ao contexto adulto que norteou os trabalhos anteriores do grupo ''A Roupa Nova do Imperador'', de Hans Christian Andersen; ''O Gato de Botas'', de Charles Perrault; e ''Pinóquio'', de Carlo Collodi.
''Quando iniciamos a pesquisa de texto, pedimos histórias que tivessem como pano de fundo a questão das diferenças entre os seres humanos. Depois, acabou prevalecendo o tema das escolhas que fazemos na vida e suas consequências. O texto fala da realidade deles, com a morte presente em muitas cenas'' explica Ed. O espetáculo é uma colagem de textos.
Além da pequena fábula assinada pelo detento, reúne seis pequenas histórias, selecionadas dentro do grupo a partir de dinâmicas de contação de estórias e improvisação. Das seis estórias, três são verídicas, vividas pelos próprios internos; duas são resultado de improvisações sobre o tema e uma foi escrita pelos coordenadores do projeto.
A inclusão de estórias pessoais dos internos não é novidade. Na montagem anterior, ''Pinóquio'', o grupo já incorporava a biografia dos participantes à dramaturgia. A exemplo também do último trabalho, os três oficineiros Ed, Letícia e Ana Claudia atuam no espetáculo ao lado de 12 presos e de dois ex-internos que estão em regime semi-aberto. Da turma, seis atuam no projeto desde a primeira montagem. A trilha sonora, selecionada pelos detentos, privilegia a linguagem do hip hop.
Apesar do teatro estar já incorporado às atividades desenvolvidas na PEL, Ed observa que suas incursões iniciais à unidade penal não foram bem recebidas. ''Alguns agentes penitenciários não gostam desse tipo de trabalho, acham que você está do lado dos internos, do lado dos bandidos. Hoje isso está mudando. No começo sofremos mais resistência'' lembra. Já na quarta montagem no local, o ator e oficineiro acredita que o projeto vem colhendo efeitos positivos entre os internos.
''Eles já têm uma noção clara de dramaturgia'' salienta. Percebi isso em julho passado, quando assisti a uma montagem feita pelos próprios participantes da oficina em parceria com participantes de oficinas do FILO. Além disso, há o lado de transformação pessoal. Alguns deles, que nem conversavam, passaram a lidar melhor com os relacionamentos. Outros, descobriram que não precisam manter sempre uma relação de poder, de querer mandar, de querer sempre que sua expectativa seja a primeira a ser obedecida''. O espetáculo será apresentado às 14h30.
Serviço:
Ficha técnica
Direção: Ed Sombrio e Letícia Ferreira/ Texto: Alcides Domingos, Ed Sombrio, Henrique Rodrigues dos Santos, Heuller Johnny de Almeida, Letícia Ferreira e Sinivaldo Domingos Neves/ Elenco: Adalto Barbosa Villas Boas, Alcides Domingos, Antonio M. Cardoso, Benedito Aparecido Camilo, Edson Alves de Souza, Henrique Rodrigues dos Santos, Heuller Johnny de Almeida, Jeferson André de Abreu, Jonas Batista da Silva, José Maria dos Santos, Sidney dos Santos, Sinivaldo Domingues Neves, Sirlei Reis, Wilson Marinho Ferreira, Ed Sombrio, Ana Claudia Sardinha e Letícia Ferreira/ Sonoplastia e trilha sonora: Edson Alves de Souza, Jeferson André de Abreu, Rafael Marinho Ferreira/ Operação de som: Rafael Marinho Ferreira.


