Curitiba - No filme ''Apaixonado Thomas'' (''Tomas in love''/França/2000), dirigido por Pierre-Paul Renders, o protagonista vive relacionamentos intensos capazes de tirar o fôlego de qualquer ser humano, não fosse por um detalhe: Thomas só se relaciona com as pessoas virtualmente. Graças à tecnologia do videofone e da internet, ele consegue driblar a doença conhecida como agorafobia, que se caracteriza pelo medo mórbido de lugares públicos e pessoas, e ter uma vida praticamente normal sem sair de casa. Faz tudo pelo computador.
Na vida real, o motivo que leva milhares de pessoas à frente do tela e da internet pode não ser tão drástico, mas o fato é que é cada vez mais comum usar a internet para procurar coisas, de objetos e histórias a relacionamentos. Paquerar, namorar e (até) casar tendo como ponto de partida a internet, aliás, já é bastante comum. Feche a primeira janela de pop up quem não conhece pelo menos um casal que se conheceu pela rede mundial de computadores.
A empresária Elizabeth Freitas começou a acessar a rede, chats e sites de bate-papo há três anos. Conheceu algumas pessoas e com uma delas, chegou a ter um relacionamento. ''Só que não deu certo. Na internet, as pessoas mentem muito. Falam uma coisa e são outra'', conta a empresária. Para ela, os sites de relacionamentos e bate-papo são ótimos para um dia de chuva ''quando não se tem nada para fazer'', mas não deve substituir a vida e os encontros reais.
''Às vezes acontece de você conhecer alguém interessante e manter uma conversa inteligente, mas mesmo assim é preciso tomar alguns cuidados'', alerta Elizabeth, complementando que é preciso manter a privacidade ''porque você não sabe com quem está falando''. A empresária salienta que até para marcar um encontro com pessoas que se conhece pela rede é preciso se precaver. ''Primeiros encontros só em lugares públicos'', enfatiza. Para ela, é preciso frequentar a rede sem grandes expectativas. ''Encontrar um grande amor na internet é questão de sorte.''
Pode se chamar de sorte o que aconteceu, por exemplo, com o casal Jonas e Maria (os nomes são fictícios, já que eles preferiram não se identificar). Jonas é músico em Curitiba e em meados da década de 90 costumava acessar as salas de bate-papo para conhecer pessoas e passar o tempo. Foi assim que conheceu Maria, que, na época, morava em Fortaleza. ''Conversamos algumas vezes e ela decidiu vir à Curitiba para conhecer a cidade e me encontrar'', conta o músico.
Depois de alguns encontros e viagens, Maria veio morar definitivamente na capital paranaense. Hoje, pouco mais de quatro anos da mudança de vida e cidade, o casal tem uma filha e não encontra motivos para se arrepender de ter acessado sites de bate-papo. ''Eu não sei se faria tudo de novo porque não foi uma coisa programada, simplesmente aconteceu'', diz o músico.
Para ele, conhecer uma pessoa pela internet é quase a mesma coisa que conhecer alguém em um bar ou boate. ''Só que o estímulo é diferente. Em um local público, por exemplo, o estímulo é visual. Na internet, você primeiro mantém uma conversa com a pessoa e depois vai saber como ela é fisicamente'', diz. ''Nesse caso, a ordem dos fatores altera o produto'', argumenta.
Utilizar a rede para conhecer pessoas ou mesmo manter relacionamentos virtuais é bastante saudável, desde que a atividade não seja predominante na vida da pessoa. É o que considera o presidente do Conselho Regional de Psicologia no Paraná, Dionísio Banazewski.
Ele analisa que a procura pelos relacionamentos na internet é maior nos grandes centros urbanos, cujo estilo de vida favorece a falta de tempo e o excesso de cuidados quando o assunto se volta aos relacionamentos reais. ''É preciso encontrar um ponto de equilíbrio. Tudo em excesso faz mal'', opina Bamazewski, concluindo que ''nada substitui o contato humano''.

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