Internautas serão cúmplices do projeto
Em sua última crônica no jornal O Estado de S. Paulo, você anuncia o projeto de começar a escrever seu novo livro na Internet com acompanhamento on-line dos visitantes de seu site. Que motivos o levaram a essa empreitada?
Mário Prata - Em primeiro lugar: satisfazer o interesse de muitos leitores que me escrevem perguntando sobre o processo de criação de um escritor. A maioria acha que existem musas, momentos iluminados, inspirações vindas não sei de onde, drogas, etc. Em segundo lugar, estava há tempos pensando em fazer uma homepage minha. Mas queria que fosse uma hp viva, com movimentos novos. Em terceiro: grana, que eu vivo disso. Todo mundo está ganhando grana com este brinquedo novo e eu achei que nós, pobres (literalmente) escritores, também tínhamos direito a uma fatia do bolo. Em quarto lugar: o lado lúdico da coisa, a novidade, o experimento. Por outro lado, foi meio óbvio ter a idéia, pois a trama do livro é muito ligada à computação e Internet. Acho que uma coisa puxou a outra.
Como será possível o acompanhamento dos leitores?
Vou ficar umas três ou quatro horas por dia on-line. Mas quando não estiver lá, o internauta vai ter muita coisa para ver. Ele pode me escrever (vai ter um secretário, o Beto Samara, para me filtrar todos os e-mails) porque vai ter um lugar para ele dar palpites. Como se trata de um romance policial, a trama já está muito bem amarrada na minha cabeça. Mas se algum maluco me der uma idéia muito boa bota boa nisso , claro que eu vou entrar em contato com ele. O importante, para mim, é o internauta conhecer o processo, inclusive os possíveis erros de digitação e português. Mas que fique claro vou escrever este livro para a editora Objetiva da mesma maneira que escrevi os outros, nos mesmos horários de trabalho, no mesmo ritmo, etc. A única diferença pra mim é que vocês vão estar vendo as minhas digitações.
Você está sendo pioneiro nessa iniciativa ou já existem outros escritores pelo mundo desenvolvendo a mesma idéia?
Quando eu tive a idéia, não tinha noção do tamanho da coisa. Me disseram que é a primeira experiência no gênero, no mundo. Já existem livros prontos, colocados na rede, como os de Stephen King e João Ubaldo. Mas assim, na cara dura, letra a letra, é o primeiro. Tenho certeza que se o Stephen King, quando pensou no assunto, se tivesse pensado mais cinco minutos, teria tido a mesma idéia.
Você já imaginou se algum escritor picareta roubar suas idéias enquanto elas estiverem sendo gestadas on-line e lançar um livro antes de você?
Acho que seria muito burrice alguém fazer isso. Testemunhas que o texto é meu não vão faltar.
Você já imaginou se muitos leitores deixarem de comprar o livro depois que ele estiver finalizado por já tê-lo lido na Internet?
Não sei. Se eu tivesse visto um escritor num determinado momento da criação dele, assistindo ele escrever uma determinada cena, mudando uma palavra, ou coisa parecida, acho que ia me sentir meio cúmplice, meio co-autor, e ia comprar só para apontar e dizer: eu vi quando ele escreveu isso aqui.
O que você acha dos e-books? Eles sinalizam o funeral dos livros impressos?
Quando surgiu o cinema, acharam que o teatro ia morrer. Quando surgiu a televisão acharam que o cinema ia morrer. Quando surgiu a Internet, disseram que a televisão ia morrer. O livro impresso tem cheiro!!! São de enfermarias diferentes. Cada um vai ficar na sua prateleira.
Aliás, esse seu novo romance poderá ser lançado no formato virtual?
Não. Os Anjos de Badaró sairá como livro normal pela editora Objetiva no final do ano. Ao mesmo tempo que será apagado da sua tela.





