São Paulo, 23 (AE) - O cantor Wilson Simonal está internado desde o dia 4 no Hospital Sírio Libanês. Apresenta um grave quadro de degeneração hepática, com infecções resultantes disso. A resposta ao tratamento médico é lenta e, nos termos oficiais do hospital, o prognóstico de melhora é "reservado". Seu amigo Sabá, contrabaixista do Jongo Trio, que tocou com Simonal nos áureos tempos, disse que a família pensa num transplante de fígado, como solução desesperada. Simonal foi uma das grandes vozes da música popular entre o fim dos anos 60 e o início dos 70. Em 1971, Simonal foi acusado de ser informante da polícia política da didatura militar. A carreira entrou em declínio. Simonal tentou provar a inocência. Jamais conseguiu. Jamais voltou à cena.
A grande desculpa sempre brandida por Wilson Simonal para justificar o ostracismo foi o fato de que, negro, suburbano carioca de água Santa, venceu na vida, encheu estádios com um público de classe média repetindo seus refrões, comprou carrões importados, namorou mulheres louras, tornou-se ídolo, vendeu mais discos do que quase todo mundo em sua época áurea, apresentou programa de TV, quebrou barreiras. Provocou inveja. Foi afastado. Nem mesmo aderiu aos movimentos negros: "Sou brasileiro, não sou africano, não tenho essa história de mama áfrica", repete, há muitos anos.
Começou a brilhar na época dos festivais, em fins dos anos 60. Antes, estudou em seminário, cantando em coros. Foi para o Exército (no 8.º Grupo de Artilharia da Costa, no Rio), chegando ao posto de sargento. Ensinou os hinos aos soldados - era dono de ouvido perfeito, voz afinadíssima, balanço inconfundível. Deu baixa, foi ser crooner de conjunto de baile e show de boate, cantando rock e a música latina - chamava-se calipso - da época.
Carlos Imperial o assistiu. Levou-o à gravadora Odeon, na qual Simonal gravou um cha-cha-cha do próprio Imperial, chamado Teresinha. Cantou na zona sul do Rio - no Drink e no Top Club, fazendo música de fundo, para acompanhar a conversa dos boêmios. Mas Sérgio Mendes, Luís Carlos Miéle e Ronaldo Bôscoli iam lá para assisti-lo. Os dois últimos o levaram para o Beco das Garrafas, templo por excelência da bossa nova, em 1961. Dois anos depois, o sucesso fonográfico viria - com Balanço Zona Sul, bossa de oportunidade de Tito Madi (mas, a rigor, Tito Madi é um dos precursores da bossa nova).
Viajou pelo mundo, com o conjunto Bossa Três, liderado pelo pianista Luís Carlos Vinhas, este sim bossa-novista de ocasião e
em 1962, lançou um disco monumental: A Nova Dimensão do Samba, que nada tinha de bossa nova. Era um pré-black music, um balanço que misturava soul, rock, samba, prenunciador de Tim Maia, com interpretações de intenções jazzísticas e algumas peças excelentes no repertório, como Nanã, de Moacir Santos, e Lobo Bobo, de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli.
A Nova Dimensão do Samba virou cult, mas Simonal abandonou a linha mais sofisticada e cresceu em popularidade. Em 1966 e 1967
comandou um programa de televisão, o Show e Si Monal, na TV Record, de São Paulo. Nos mesmos anos, lançou seus maiores sucessos: uma adaptação, feita por Carlos Imperial, de Meu Limão
Meu Limoeiro, e o suingado País Tropical, de Jorge Ben (que ainda não assinava Ben Jor). Criou o recurso de comer sílabas no início da música. Em vez de cantar os versos originais, "Moro/ Num País tropical...", dizia: "Mo... /Num Pa... tro... pi...." As multidões deliravam. A expressão Patropi, para designar nosso país tropical, nascia ali, ganhava cunho jocoso e daria nome, depois, à irreverente editora criada pelo irreverente semanário O Pasquim - aliás, o primeiro jornal a condená-lo.
Simonal criou (com Carlos Imperial) um estilo ao qual chamou de "pilantragem". Seu grito de guerra para animar as platéias - chegou a levar 30 mil pessoas ao Maracanãzinho, no Rio - era: "Vamos voltar à pilantragem." E a banda atacava com ritmo, metais e todos dançavam. Era uma época em que a palavra "comunicação" estava na moda. O apresentador de rádio, depois da TV, Abelardo Barbosa, o Chacrinha, era um dos dois grandes "comunicadores". O outro era Wilson Simonal.
O público de classe média alta obedecia a suas ordens. "Agora, auditório, comigo!", dizia, ao microfone. Alguns jornalistas viam na sua atitude uma maneira de debochar do poder constituído. Nelson Motta escreveu, em 1967, no Jornal do Brasil: "... arranjou um jeito de protestar, gozando e debochando de um esquema que consagrou as suas pilantragens." É ainda Nelson Motta quem lembra que Simonal só ouvia música boa e só cantava música ruim. Era questão de ganhar dinheiro. Para que se tenha idéia de seu poder de dominar platéias: Sérgio Mendes, que fazia imenso sucesso, com seu conjunto, nos Estados Unidos, foi contratado pela Shell para uma série de shows promocionais, em grandes estádios, em algumas cidades, em 1969. Simonal era a atração de abertura. O público não o deixava sair do palco. Sérgio Mendes ficava em segundo plano e quase não entrava em cena. Quando entrava, a platéia pedia Simonal.
Em setembro de 1969, Simonal contratou um contador chamado Rafael Viviani. Na metade de 1971, Viviani foi despedido. Entrou na Justiça contra o ex-patrão, exigindo pagamento de direitos trabalhistas. Simonal resolveu vingar-se. Acusando Viviani de roubar seu dinheiro, chamou dois amigos policiais - Hugo Correa de Matos e Sérgio Andrade Guedes - e eles, ajudados pelo motorista do cantor, Luís Igloti, sequestraram o contador, no dia 24 daquele ano, e o levaram para o Dops (Departamento de Ordem Política e Social, polícia política do regime militar), onde Viviani - de acordo com o processo que correu na época - foi mantido preso por vários dias e torturado. Outro acusado no inquérito foi o chefe do Serviço de Buscas Intensivas do Dops do então Estado da Guanabara, Mário Borges.
A história veio a público. O prestígio caiu. Os discos pararam de vender. Em 1974, Wilson Simonal foi condenado a cumprir cinco anos de prisão em uma colônia agrícola. A história cresceu. Simonal foi apontado como "agente do Dops", ou seja: informante da polícia política, o sujeito que convivia com os artistas para denunciar às autoridades suas atividades consideradas subversivas. Era uma suspeita. Virou verdade absoluta.
Para quem não viveu aqueles tempos, talvez seja difícil entender o que era ser chamado de "dedo-duro", entregador, alcaguete. O meio artístico, especialmente o musical, era o porta-voz dos descontentes com a ordem política vigente. Um traidor só poderia ser execrado. Simonal foi execrado. Perdeu público, perdeu contratos com gravadoras, perdeu contratos publicitários. Foi condenado ao ostracismo. Foi calado. Foi tirado de cena. Desde então, tenta provar a inocência. Nunca conseguiu voltar ao que fora.
Não adiantou que Gilberto Gil houvesse declarado Wilson Simonal a "vítima de uma teia de fofocas", que Caetano Veloso dissesse que nada tinha a declarar contra ele, que Antônio Adolfo (de quem Simonal gravou o maior sucesso, Sá Marina) o inocentasse, que Roberto Menescal dissesse que ele virou bode expiatório. No entanto, esses mesmos artistas não vêem boicote: "Nunca ouvi falar em boicote nem da suposta amizade de Simonal com agentes repressores da época da ditadura", resume Tom Zé.
Garganta - O fato é que Simonal se jactava da amizade, da intimidade, com poderosos - especialmente com a polícia. Tinha orgulho em dizer que era "amigo dos homens". É inegável que usou as amizades para vingar-se do contador. É discutível que tivesse algum outro tipo de ligação com a repressão política. Seu grande amigo Ronaldo Bôscoli resumiu, certa vez: "Ele foi bobo, entrou na própria fantasia, se perdeu por ser otário." Dizia que Simonal era um "garganta", um contador de vantagens que se fazia de mais importante do que era, usando o nome de poderosos. Bôscoli jurava desconhecer ligações de Simonal com a polícia política.
Condenado ao silêncio, Simonal conseguiu ainda gravar um disco, chamado Bem Brasil, em 1996, mas a voz já não era a mesma. Estava abatido, deprimido, com a saúde fragilizada.
Como tantas histórias do período da ditadura, essa guarda pontos misteriosos. Não há acusações formais, de parte alguma, de que Simonal fosse agente de informações do Dops. Nos últimos anos, ele tem andado com documentos oficiais que atestam nunca ter tido nenhuma ligação com a polícia. Vista em perspectiva, trata-se de uma história de censura. Geraldo Vandré foi calado pela censura de direita. Simonal, pela desconfiança das esquerdas e simpatizantes. Sem dúvida, cometeu arbitrariedade, ao sequestrar seu contador, e como o fez. Está pagando, até onde se possa provar, por muito mais.

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