Interior paulista vê obras de Portinari
São Paulo, 27 (AE) - O regionalismo de Cândido Portinari é o tema da exposição que levará obras pouco exibidas e algumas inéditas às cidades de Ribeirão Preto e Campinas. Dos dias 2 a 18, no Museu de Arte de Ribeirão Preto, e de 23 de setembro a 10 de outubro, no Museu de Arte Contemporânea de Campinas, a mostra "O Interior de Portinari" terá pinturas que retratam a paisagem de Brodowski, o trabalho, jogos infantis e retratos de família. "É uma homenagem ao interior", diz a curadora da exposição, Pierina Camargo.
O menino pobre do interior observava atentamente tudo que o cercava. A vida das crianças de sua pequena cidade, suas brincadeiras, os retirantes que por ali passavam rumo a uma vida melhor e o plantio do café. "Tudo aquilo que ele viu na infância impressionou seus olhos e a sua alma desde cedo e ficou gravado para o resto da vida", explica João Cândido Portinari, seu filho.
São 27 obras que pertencem a colecionadores de São Paulo (capital e interior) e do Rio. A redescoberta desses trabalhos só foi possível graças à ação do filho do artista, que há 20 anos comanda o Projeto Portinari. O primeiro passo do Projeto foi fazer um levantamento de tudo que havia sido feito por Portinari. Foram encontradas 5,3 mil obras, sendo que 4,6 mil com autenticidade comprovada, 200 eram falsas e 500 ainda estão sendo analisadas.
Hoje o projeto tem tudo digitalizado e conta com diversas atividades de divulgação como, por exemplo, palestras em escolas, universidades, centros de estudos e até mesmo uma programação para crianças da população ribeirinha do Pantanal. "A obra de Portinari é uma grande carta ao povo brasileiro", acredita João Cândido. "É uma carta que ainda está fechada."
Os brasileiros conhecem pouca coisa de seu trabalho, embora reconheçam Portinari como um dos maiores artistas do País. As pinturas espalhadas Brasil afora dificultam esse encontro da arte de Candinho, como era conhecido, com o público. O Projeto Portinari existe justamente para fazer uma homenagem não ao pintor, mas aos que ainda não conhecem quadros que retratam a realidade brasileira como os famosos "Café", "Retirantes" e "Criança Morta".
É a primeira vez que a temática do interior é utilizada em uma exposição de Portinari. João Cândido ressalta o contraste presente na obra do pai. "É poética e dramática, cheia de ternura e fúria." Telas que estarão na exposição, como "Mulheres Carregando Lenha" e "Meninos Soltando Papagaios" - da mesma série de "Meninos com Pipas" - por um lado retratam a particularidade da cidade natal de Portinari, por outro tem um quê de universalismo, pois remetem a temas que, antes de qualquer especificidade, abordam o humano. Tal como a obra de Graciliano Ramos, se comparada à literatura.
E é em um de seus últimos grandes trabalhos que, segundo João Cândido, Portinari reúne o trágico ao belo e faz do regionalismo algo universal. O mural feito para a ONU em 1956, "Guerra e Paz", mostra figuras típicas das pinturas anteriores
mas que já não pertencem a um lugar específico, são personagens mundiais. Nesse espaço de 14 metros de altura, um coral de crianças divide a cena com uma mulher segurando uma criança morta.
A exposição de Campinas e Ribeirão Preto, que mostrará exclusivamente esse regionalismo universal de Candinho, é, de certa forma, mais uma tentativa de colocar o público em contato com seu trabalho. E talvez sua carta ao povo brasileiro esteja chegando ao seu destinatário somente agora.





