Interferências estéticas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 13 de dezembro de 2000
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha2 
Em 1931, o multi artista Flávio de Carvalho (1899-1973) realizou a sua Experiência nº 2, tomando-a como material de pesquisa antropológica. Tratava-se de uma caminhada em sentido contrário a uma procissão de Corpus Christi, em que ia vestido com um chapéu na cabeça. Queria saber porque as pessoas reagem emotivamente em meio à multidão, contrariando, muitas vezes, os próprios dogmas pregados que tornaram possível essa reunião.
Para a arte contemporânea esse é um tipo de atitude já incorporado em seu programa, uma vez que nem o suporte, nem mais o objeto são elementos importantes na realização de um trabalho, mas, muitas vezes, seu processo de desenvolvimento. Assim, uma idéia pode ser muito mais importante do que qualquer pintura de natureza-morta, ou uma estátua, se elas não possuem algum sentido além da beleza que querem representar.
Marcel Duchamp (1887-1968) foi um dos primeiro a entender essa questão, realizando uma operação de deslocamento de contexto dentro da história da arte, que iria mudar toda nossa percepção sobre as questões que a arte deveria discutir. Ao colocar um urinol invertido sobre um pedestal em um museu, ele inventou uma situação que tirava do objeto sua importância e o deslocava para a idéia que o gesto artístico poderia provocar. O que fez foi simplesmente transformar um objeto industrializado, banal, em obra de arte.
Duchamp, ao contrário de Picasso, não tinha nenhum interesse em salvar a arte, em torná-la categoria especial de mercadoria, como acreditava seu contemporâneo espanhol. Sabia que era ingênuo lutar contra um sistema de produtivo desumanizado e feito em escala de consumo para servir à massa.
Não foi diferente do que se deu com o movimento Pop americano, a partir dos anos 50. Jasper Johns pintava a bandeira dos Estados Unidos como se nos mostrasse uma imagem vazia sendo consumida por um gesto inútil. Símbolos que não faziam mais sentido. Andy Warhol fazia imagens de produtos populares, demonstrando que conhecia os desejos da sociedade em que vivia. E Roy Lichenstein usava o clichê das histórias em quadrinhos para reforçar a idéia de clichê. Afinal, para que serve a arte e os artistas em uma sociedade de consumo?
Qualquer um pode ir, hoje em dia, em uma loja de fantasias e comprar uma máscara que reproduz a figura do quadro O Grito de 1895, de Edvard Munch (1863-1944), pintada com toda a dor e a angústia da condição humana e transformada pela indústria em objeto banal de consumo popular. Nem Duchamp esperava por esta!
Foi com uma máscara dessas encobrindo o rosto de uma estátua de bronze, representando uma santa, que aconteceu uma intervenção urbana em uma praça no centro de Londrina. Uma ação que acabou se tornando muito próxima à de Flávio de Carvalho, quase 70 anos depois. Em meio ao fluxo intenso do trânsito, no lugar em que mendigos dormem e pessoas usam o pedestal de granito para fazerem suas necessidades, qual o sentido de uma estátua afixada em uma praça da cidade, demonstrando uma solidez e segurança que não condizem com nada do que, de fato, acontece ali? O que dizer da quantidade de bustos espalhados pela cidade, demarcando territórios, definindo domínios e que não delimitam, nem demarcam nada? Obras públicas?
Não podemos fingir que ainda vivemos sob o signo da representação renascentista da imagem como se nada tivesse acontecido com nossas consciências, apesar de tudo apontar em direção oposta à esta estética estática baseada na representação de um ideal de beleza.
Por isso, o sistema de arte já não faz mais sentido. A produção de objetos tornou-se uma armadilha e o que faz a questão da arte relevante é a ação que o artista emprega para a sua realização, dentro de contextos específicos. E os suportes para uma ação estética contra a anestesia generalizada, já se cansaram de superrar todas as formas tradicionais que, até então, eram tidas como verdades únicas. Não cabe à arte a função de salvar o mundo.
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