Interessantes
inquietudes sonoras
Sim, ‘‘Maritmo’’ é um disco pop. Provocativamente pop e com lampejos de experimentalismo aqui ou ali. Por esse motivo é que não deve ser colocado ao lado de outros produtos em que a parafernália eletrônica é acionada para suprir fragilidades melódicas. Por não padecer da falta desse atributo, Adriana Calcanhoto pôde brincar como quis com as maquininhas de fazer som muito embora as tenha usado de maneira econômica. Ou seja, o tum-tum-tum eletrônico foi utilizado de maneira inofensiva aos ouvidos. Serve apenas para referçar o conceito ritmo-dança que permeia o disco e não como um expediente banal que deixa o trabalho de alguns artistas notadamente pop mais interessante ou contemporâneo.
E daí que ‘‘Maritmo’’ é um disco pulsante mas não desvairado. É, portanto, o trabalho mais feliz (em todos os sentidos) que Adriana Calcanhoto lançou até hoje. Ela ainda bebe na fonte da MPB. Mas, desta vez, Calcanhoto resolveu sair do comodismo e abrir os ouvidos para tendências musicais que estão sendo absorvidas - em alguns casos até descaracterizando a música brasileira.
O que deve ser saudado em ‘‘Martimo’, além do seu conteúdo, é o fato de que Adriana arquivou a sobriedade que marcou seus trabalhos. Se em ‘‘A Fábrica do Poema’’, de 95, o mais complexo para não dizer quase chato, ela se propunha a fazer pensar, em ‘‘Maritmo’’ a mensagem parece ser: pensemos, mas dancemos também.
Logo na primeira faixa, Adriana empunha a ruidosa guitarra para preparar os ouvintes às suas estripulias musicais. Abre com ‘‘Parangolé Pamplona’’, referência à ‘‘obra’’ do artista plástico Hélio Oiticica em que, através de um pedaço de pano, qualquer pessoa pode fazer uma ‘‘capa feita no corpo’’. Feitas as reverências e referências iniciais, começam as boas surpresas. A começar pela deliciosa ‘‘Maritmo’’, em que o samples interfere positivamente na levada bossa-novística.
Já que o negócio é dançar e pensar, Adriana ataca de ‘‘Pista de Dança’’ (em parceria com Wally Salomão) que apesar da manjada batidinha dance salva-se pelo belo poema. O lado experimental de Maritmo aparece em ‘‘Vamos Comer Caetano’’, em que são feitas colagens de trechos de músicas de Caetano Veloso; na bela ‘‘Canção Por Acaso’’, com arranjo e participação de Hermeto Pascoal; e na curiosa vinheta ‘‘A Cidade’’, do pernambucano Helder Aragão composta por sons que ele colhe pelas cidades.
Mas nem tudo é baticum eletrônico. As baladas na vida artística de Adriana são imprescindíveis. Lá estão a bela ‘‘Vambora’’ (dela), ‘‘Mais Feliz’’ (Dé-Bebel Gilberto- Cazuza) e a bonita versão para ‘‘Por Isso Eu Corro Demais’’ (Roberto Carlos). Dorival Caymmi no momento mais singelo do disco cantando uma de suas pérolas - ‘‘Quem Vem Para a Beira do Mar’’.
Entretanto, o melhor momento do disco é ‘‘Dançando’’, uma deliciosa canção de Péricles Cavalcanti que, aliás, resume o conceito de ‘‘dançar, falar de dança ou as duas coisas’’, como Adriana mesmo escreveu no release de apresentação do disco. Por via das dúvidas, vale a pena dar uma ouvidinha em ‘‘Asas’’ (Adriana e Antonio Cícero) cujos versos iniciais são simplesmente fantásticos: Suas asas/amor/quem deu fui eu/para ver/você/conquistar o céu./Observe tudo embaixo/ser menor do que/você. ‘‘Maritmo’’, em resumo, é algo que precisa ser degustado devagar. Não por ser complicado. Mas é que numa ouvida só é bem capaz de perder sutis inquietudes de Adriana Calcanhoto.
(A.M.J.)

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