Interessante, mas sem novidades
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de julho de 1997
Antônio Mariano Júnior Londrina 
Decepcionar, não decepciona. Mas em compensação, Chico César em seu terceiro disco - Beleza Mano (Polygram) - parece estar mais preocupado em firmar estilo do que propriamente arriscar novos caminhos musicais. É bem verdade que, discretíssimo, existe um certo Arrigo Barnabé jogando com o charme de seu piano desvairado o que acaba transformando Espinha Dorsal do mim numa faixa modernex. Há também, logo na abertura do disco a faixa Chaga, um griteiro em forma de vinheta que soa prafrentex mas, bem analisada, se mostra inócua.
No mais, há reggae, xote, choro, toadas, afoxés, carimbó, gêneros devidamente reciclados por Chico César o que mostra Beleza Mano como um trabalho mais dançante do que contemplativo. Há semelhanças com o trabalho anterior do compositor, Cuzcuz Clã. A diferença é que Beleza Mano tem um gosto maior de brasilidade mesmo que uma ou outra faixa diga o contrário.
No total, 19 músicas. Regravações, três - Onde Estará o Meu Amor, Carinho de Carimbó e Feixe. Momentos preciosos há a rodo, seja em forma de delicadeza e brejeirice (Sanfoninha), de agressividade oportuna (Papo Cabeça) e até de lirismo comedido mas tocante (Duas Margens). Mas é impossível falar de um disco de Chico César só pelo riqueza rítmica. Ele é um letrista interessante.
Buá, buá, buáEm Beleza Mano, as letras são mais diretas, sem muita lapidação mas sem sombra de dúvidas instigantes. É o caso de Perto demais de Deus em que o compositor chega à constatação de que tem gente incapaz de viver sem Deus/ e o trata como um funcionário seu. De longe, a observação aguçada e crítica de Chico César está concentrada principalmente em Papo Cabeça.
Em contrapartida, há uma bobagem incrível. É a sacolejante Neném que até Eliana, a dos dedinhos, ficaria um tanto quanto constrangida em gravar. Vejamos a letrinha: Neném não tem onde morar/neném não tem onde nanar/neném não tem onde mamar/neném não tem papai/ neném não tem mamãe/buá, buá, buá.
Deslizes, deslizes. No geral, não poluem nem comprometem Beleza Mano um disco acessível, mas não simplório; comum, mas não banal; instigante, mas nada que se possa chamar de obra prima. Vale pelo suingue e por boas tiradas. Melhor sorte e ousadia no próximo.


