Intercâmbio cultural é polêmico
Xingu - Projetos de convivência entre turistas e índios sempre causaram polêmica. E assim vão continuar. Opiniões contra e a favor dessas iniciativas dão margem a discussões sem fim. Os que discordam, falam da falta de informação sobre o impacto ambiental dessas ações. Quem concorda com a troca de experiências, cita a obtenção de recursos com o turismo como um dos benefícios para os povos indígenas.
''Os índios têm todo direito de transitar fora da terra deles'', diz o vice-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Roberto Lustosa. ''Um projeto como esse é melhor do que invadir terras indígenas'', completa. Segundo Lustosa, o índio quer ter benefícios da sociedade. ''Eles têm plena consciência de que devem manter a tradição'', diz.
Para alguns estudiosos, como a professora do Departamento de História e de Turismo da PUC-SP Lucília Siqueira, essa pode ser uma maneira de inseri-los na sociedade. ''A cultura se transforma. A questão é se eles têm condições de saber para onde se transformar'', diz. Embora não conheça o projeto, a respeitada antropóloga e professora da PUC Carmem Junqueira acredita que os índios precisam de recursos financeiros. ''Eles têm educação, saúde e ainda assim estão lutando para obter recursos'', diz, ressaltando que, para um projeto turístico dar certo, é necessário infra-estrutura. ''Pode ser bom, desde que os índios não sejam instrumentalizados'', explica.
O foco muda quando um programa desse tipo é avaliado por uma pessoa que trabalhou no projeto de educação do Programa Xingu, dentro das escolas das aldeias indígenas. ''Não foram divulgadas informações sobre os problemas ambientais que interferem na vida dos habitantes do parque, como a poluição das cabeceiras do Xingu, o desmatamento e as invasões dos limites de terra, entre outros'', ressalva a doutoranda da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo Adriane Costa da Silva. ''Trata-se de uma preocupação real ou apenas marketing para vender pacotes turísticos a consumidores ecologicamente motivados?'', questiona.
Ela acredita que, na perspectiva dos xinguanos, o turismo é uma forma de comunicação, uma maneira de ganhar visibilidade na mídia e garantir direitos. ''Mas, o que está se tornando visível nesse roteiro? Qual o papel desempenhado pelos habitantes da Terra Indígena Xingu na concepção e desenvolvimento deste projeto?'', indaga Adriane. (C.V.)





