Intéprete de estilo e prestígio
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quarta-feira, 10 de julho de 2002
Reportagem Local 
Teatro Castro Alves, Salvador, 15 abril de 2000. Pela primeira vez, Gilberto Gil e o poeta e escritor Antonio Risério conseguiam montar um espetáculo cênico-musical reunindo Daniela Mercury, Ivete Sangalo e Margareth Menezes. As duas primeiras deram conta do recado, mas as prolongadas palmas e ovação acabaram destinadas a Margareth Menezes. O teatro veio abaixo quando Maga entrou no palco declamando um orikí (poema a orixá) à Iansã e emendando com ''Faraó'', um dos hinos do carnaval baiano. A performance magnífica de Margareth foi memóravel e marcou o Panorama Percussivo Mundial, o Percpan. Ora, foi apenas uma ''palhinha'' já que ela tem o poder de roubar a cena o ''padrinho'' David Byrne, que a convidou no final da década de 80 para abrir sua turnê, ficou impressionado com aquele furacão no palco. Lá fora, Margareth é sucesso garantido graças às temporadas que faz regularmente por países da Europa e nos EUA.
Todos têm uma palavra forte, carinhosa e sincera a dedicar-lhe. ''Ao ser perguntado por um jornalista como descreveria suas personagens femininas, Jorge Amado disse: 'Minhas personagens podem ser personificadas em Margareth Menezes, que tem a força de Tereza Batista, a obstinação de Tieta, a ternura de Dona Flor e a sensualidade ingênia de Gabriela'. Eu completaria a frase de Jorge dizendo: 'E ainda por cima canta!''. A declaração é de Zélia Gattai, uma das muitas celebridades que se admiram com a arte de Margareth Menezes. Se às outras cantoras restaram popularidade e vendagem, a ela coube o prestígio. O respeito de gente do povo, gente da elite, gente de todas as cores e bolsos. ''Olha, eu agradeço todo esse respeito, mas minha intenção de verdade é unicamente proporcionar prazer a quem me ouve'', disse Margareth, em entrevista à Folha2, por telefone.
No entanto, a artista mantém os pés no chão. Mesmo com toda pompa e circunstância que a cercam, ela sabe que um cantor não pode viver simplesmente de prestígio. Se há um bom acolhimento de seu trabalho, por que então tanto tempo longe das gravadoras? ''As gravadoras sumiram de mim'', avisa. O penúltimo disco, ''Gente de Festa'' (95), belo trabalho por sinal, saiu pela Warner-Continental que fez tudo menos o que se espera de uma gravadora: um trabalho de divulgação à altura de sua contratada. Romperam-se e cada um foi para o seu lado.''Fiquei na expectativa de outra gravadora e enquanto não vinha, comececei a batalhar por outras coisas. Sem disco há uma dificuldade de divulgação maior de um trabalho. Acabei aceitando ficar independente, mas me envolvi em outros projetos'', diz.
Entre os projetos, além de participação de trios-elétricos no carnaval, idealizou o ''Maga Convida'', de novembro a fevereiro de 99, quando todas as quintas-feiras recebia um convidado de honra numa casa noturna de Salvador entre eles, Edson Cordeiro, Elba Ramalho, Carlinhos Brown, Sandra de Sá. E a coisa foi ganhando proporção ao ponto de ela realmente resolver bancar um disco só com composições próprias. Necas de gravadora, disco engavetado.
Agora, parece que as gravadoras se renderam aos seus encantos. Tudo indica que a Universal Music, ditribuídora de Maga Afropobrasileira, está embevecida com Margareth tudo indica que outro disco deva ser lançado tendo ela no casting da poderosa multinacional. ''Apesar do meu canto ser muito percussivo, sou uma cantora moderna. Hoje o mercado está mais aberto. Claro que gostaria de vender milhões de cópias, mas sou muito pé no chão com essas coisas'', afirma.
Os planos para o futuro incluem um disco só com chulas baianas, ritmo cultivado e preservado admiravelmente por Roberto Mendes. Enquanto não chega, vai divulgando o quanto pode sua mais recente e suada cria. Agora, com o disco vai poder cantar as boas novas e mostrar-se como a intérprete fascinante e faiscante que é cenicamente. E o ritual será o de sempre. ''A música mexe toda comigo, por isso uma hora antes de subir no palco começo a me concentrar. É delicado ser o centro das atenções porque você tem que dividr energias com o público. Antes de entrar, peço guarnição e rezo para dar conta da minha grande missão que é cantar'', ensina. (A.M.J.)


