Antônio Mariano Júnior
De Londrina
Ela some, aparece, torna a sumir, ressurge... Fátima Guedes é assim mesmo: uma personagem bissexta no mundo fonográfico brasileiro. Não devia ser assim, mas é. Bem, depois de cinco anos de ausência, a cantora e compositora retorna à cena para espichar sua discografia com ‘‘Muito Intensa’’ (Velas). É seu nono disco. Disco autoral. Como o primeiro, lançado em 79. Pois é, Fátima Guedes está comemorando, discretamente, 20 anos de carreira.
Uma respeitável carreira é feita, por consequência, de discos respeitáveis. Como ‘‘Muito Intensa’’. Trata-se de um trabalho feminino e, sobretudo, confessional marcado pela objetividade melódica e literária. ‘‘Estou buscando a simplicidade para fazer discursos mais diretos. Quero uma poesia de entendimento mais rápido’’– admite a cantora e compositora.
Em seu novo trabalho, Fátima inaugura parcerias incríveis – ora ela põe música ou letra em peças de Djavan, Adriana Calcanhotto, Ivan Lins, Nei Lopes e Joyce. Faltou um: Guinga. Ausência sentida já que Fátima Guedes foi e é uma das maiores divulgadoras do trabalho do compositor carioca. O motivo: Guinga havia lhe remetido uma música ‘‘complicada’’ demais para um disco que prima pela simplicidade quase franciscana. ‘‘A música dele é perfeitíssima e eu estava buscando uma coisa mais simples’’– afirma.
Então tá! Acontece que essa coisa de se mostrar mais acessível faz com que ‘‘Muito Intensa’’ comece de maneira questionável. As duas primeiras faixas deixam um pouco a desejar. ‘‘Muito Intensa’’, a primeira, tem uma bela letra prejudicada pelo arranjo em que o sax dá um clima de jingle de motel. A segunda, a toada ‘‘Grata’’ (dela com Joyce), recebeu versos recheados de impressões adolescentes.
Mas as bobagens de menina passam logo e ‘‘Muito Intensa’’ começa a impressionar. A maturidade da grande mulher compositora que Fátima Guedes é aparece, por exemplo, em ‘‘Namorados’’. Balada das mais tocantes. Outras melhores virão. E a mais bonita de todas é a dolorosa ‘‘Muito Obrigada’’, que recebeu uma longa introdução instrumental. É a grande punhalada do disco embora ‘‘Desejo’’ também tenha seus encantos.
O amor e o desamor são as tônicas do disco. Fátima toca nesses dois sentimentos opostos sem maiores alinhavos conceituais. São músicas de amor e só. É escolher qual melhor se encaixa nos sentimentos de quem as ouve, seja através de baladas, toadas ou mesmo sambas. Fátima é mais convincente cantando os dois primeiros gêneros. Sambinha (no bom sentido), definitivamente, não é sua praia embora até dê conta do recado.
Não em todos. Entre o equivocado arranjo feito para ‘‘Corpo Mestiço’’ (Itamar Assiere, o arranjador, foi infeliz ao promover um clima percussivo estilizado demais para a africanidade da letra de Nei Lopes) e a retilinidade de ‘‘É Sério’’, melhor se dar por satisfeito em ‘‘Dois Amores’’ (ambos feitos em parceira com Djavan).
Nem só nas letras e canções é que Fátima está, digamos assim, mais econômica. A interpretação, que nos dois últimos trabalhos vinha se insinuando visceral, também está mais direta. ‘‘Muito Intensa’’ é um bom trabalho, sem sombra de dúvidas. Toca, não como outros, mas toca. Aos poucos, devagar, com calma. Sem pressa!!

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