Inteligência, tecnologia e sensibilidade
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de setembro de 2000
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha2 
Se a consciência da humanidade evolui, afetando o modo de produção e transformação da matéria, também sua sensibilidade se modifica, alterando o comportamento e a relação do homem e o mundo com seus mitos e crenças.
Momentos muitos especiais, como na Renascença, marcam de forma definitiva a compreensão de aspectos da natureza e a criação de meios e uso de tecnologias capazes de influir em nossa trajetória como habitantes deste planeta.
A invenção da perspectiva na representação do espaço e o desenvolvimento da melodia na percepção do tempo, reposicionaram a percepção humana tanto quanto a descoberta do Novo Mundo. Deus passa a pertencer a um Universo geometrizado, exato. A terra, sabe-se então, tem um centro gravitacional e gira em torno de si mesma.
Privilegiada também foi a segunda metade do século 19. A filosofia de Nietzsche, a antroposofia de Rudolf Steiner, o espiritismo de Alan Kardec, o estudo do átomo, o avanço em todas as áreas do conhecimento, como na química e na biologia, a descoberta do inconsciente, por Freud, as teorias de Marx comprovando a exploração do homem pelo homem no sistema capitalista. Nas artes, foram fundamentais as criações de Debussy na música, de MallarmS na poesia e de CSzanne na pintura, por exemplo. Tudo isto foi uma revolução nas estruturas do conhecimento e da sensibilidade humana.
A velocidade com que as transformações se deram a partir de então, fizeram a história parecer um presente contínuo. Mal se assimilava uma situação, outra já se anunciava. Nos anos 60 não só as tecnologias eletrônicas foram desenvolvidas, mas a própria atitude comportamental sofreu uma mudança radical em seus valores. Todas as fronteiras foram colocadas em xeque.
Mal começamos a digerir toda essa confusão movida a choques, conflitos, resistências, perdas e ganhos naturais de processos tão acelerados, e já nos deparamos com questões que chegam ao limite da clonagem de seres vivos, enquanto ainda não foi resolvido o problema da fome, da saúde e da educação para milhões de seres humanos, impedidos de participar como agentes da cadeia produtiva.
Pierre Levy, um filósofo contemporâneo francês, que estuda o desenvolvimento de novas tecnologias, é categórico ao afirmar que a inteligência é a mediadora entre a técnica e a sensibilidade, sendo uma interdependente da outra.
Para Eduardo Kac, artista carioca, residente nos Estados Unidos e professor do Instituto de Arte de Chicago, o uso de novas tecnologias serve como ferramenta para discutir a relação do homem com o mundo. Sua visão é que a arte pode fazer uma crítica da ciência, uma vez que esta é incapaz de refletir sobre si mesma. Sua obra propõe a criação de seres transgênicos para serem colocados no meio do convívio cotidiano, como obras de arte vivas.
A importância desse tipo de atitude é sobretudo a da alteração do estatuto do homem e do artista diante da liberdade criativa e sua responsabilidade ética no uso de novas tecnologias que ampliam nossa capacidade de transformação da matéria e da própria percepção da vida.
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