INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de setembro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
Stanley Kubrick tinha uma visão. Uma visão sobre o ser humano e o que para ele reservava o futuro, a curto, médio e longo prazo. Sua atitude frente a este tema foi fria e distante, como de resto quase sempre tudo em sua filmografia, sem jamais querer se intrometer na história e mantendo sempre uma distancia como segurança. Esta mesma distância transformava Kubrick, e por extensão o público, em meros espectadores de fatos descritos na tela e que devem ser aceitos como são contados. ''A. I. , Inteligência Artificial'' (veja programação de cinema na página 5) poderia ter se convertido no vértice final de um tríptico filosófico sobre a evolução humana, formado por ''Laranja Mecânica'' e ''2001 - Uma Odisséia no Espaço'', se o mestre não tivesse morrido há dois anos e meio. Com a primeira, Kubrick adivinhou os problemas que afetam hoje a sociedade, como a perda de ideais e a destruição sistemática da cultura de massa. Como continuação, ''A.I.'' trataria, em futuro não muito distante do nosso, da cada vez mais tênue linha que separa a inteligência real da artificial, e como uma das duas pode acabar se convertendo na outra, fazendo do homem um novo Deus. E finalmente ''2001'' seria o epílogo desta jornada evolutiva que leva o homem a se redescobrir como uma nova espécie.
Kubrick deixou de concretizar o projeto nos anos 80 diante das dificuldades em materializar os efeitos especiais que tinha em mente para adaptar a novela de Brian Aldiss, ''Supertoys Last All Summer'' (Superbrinquedos Duram o Verão Todo). Isto foi confirmado pelo cunhado do cineasta, Jan Harlan, ontem durante a coletiva que se se seguiu à projeção do filme em Veneza. Mais tarde, já na década passada, convencido de que a pós-produção para criar o mundo futurista daria enorme trabalho, decidiu apenas produzir o filme, propondo a direção a Steven Spielberg, de quem tinha ficado amigo. Isto teria ocorrido, não fosse a morte Kubrick. Mas ficou uma espécie de legado que o criador de Indiana Jones resolveu assumir, muito por insistência do diretor de ''De Olhos Bem Fechados''. O resultado, que mescla a frieza quase cirúrgica de Kubrick e a facilidade de Spielberg - muitas vezes de caso com o exagero - para manipular emoções com frequência sobrecarregadas de efeitos extra-corpóreos, é uma destemperada obra de ficção científica. Em partes desiguais, ''A.I.'' contempla o pior e o melhor de Spielberg (aqui de novo dirigindo um roteiro dele, 24 anos depois de ''Contatos Imediatos''), e apenas em algumas sequências quase o melhor de Kubrick. É pouco.


