Integração entre arte e vida
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de março de 2001
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha2 
Integrar arte e vida pode parecer um sonho utópico para uma sociedade pautada somente por funções especializadas onde cada um cumpre seu papel para o funcionamento da máquina produtiva. Mas para a arte e os artistas contemporâneos esta definição pode ser bastante variável e elástica, pois seu campo de atuação não está restrito simplesmente às Belas Artes, com preocupações estéticas sobre o feio e o bonito, ou no uso de materiais convencionais e tradicionais e, principalmente, porque para estes artistas a arte extrapolou o campo da representação, ou seja, de mostrar uma coisa querendo dizer outra.
Para o artista alemão Joseph Beyus, tudo pode ser pensado como arte. Em um documentário de vídeo sobre sua vida, ele dizia que até as batatas que ele estava descascando naquele momento e que serviriam para o almoço, poderia ser um gesto artístico.
De fato, um estado de vida artístico, não necessariamente é feito de criação de obras, objetos, coisas e conceitos o tempo inteiro, mas da criação de sentido existencial. Ligya Clark, em um texto de 1971, diz que ...já existem numerosos grupos de jovens que integram o sentido poético da vida à sua existência, que vivem a arte ao invés de fazê-la. E vai além, dizendo que ...no próprio tempo em que o artista é cada vez mais digerido por essa sociedade em dissolução, resta-lhe, na proporção de seus meios, tentar inocular uma nova maneira de viver. E foi assim que ela viveu, rejeitando mais tarde, inclusive a categoria de arte para o trabalho que fazia, preferindo o nome de terapia ou psicoterapia.
Mas não é só na arte que a questão vivencial vem à tona. Para a física quântica, a filosofia contemporânea e até em procedimentos tecnológicos, caso das redes de comunicação, como a internet, por exemplo, a fusão de procedimentos entre áreas diversas, as trocas de conhecimentos e experiências, vão configurando uma nova realidade, inter e transdisciplinar e cultural.
No Brasil, cuja formação populacional é constituída de misturas étnicas, falta-nos estabelecer, sobretudo, vínculos culturais maiores com os indígenas, verdadeira matriz e útero sem identidade de nossa civilização. Para os habitantes da terra antes da chegada de Cabral, natureza e cultura não são pólos opostos e é por isso que eles dançam, cantam, se pintam, guerreiam, fazem amor e morrem como parte da vida e não da arte.
Comentando sobre o surto de performances e instalações artísticas que a cidade do Rio de Janeiro anda assistindo em suas ruas, como uma febre, o diretor do Museu de Arte Moderna de lá, Fernando Cochiarale, disse em entrevista ao Jornal do Brasil, que ...a estetização da vida e tanto maior quanto menor a estetização da arte. Talvez seja por isso que vários artistas tem preferido atuar diretamente no espaço público e em outros circuitos, não se importando de que suas ações sejam chamadas de arte, ou não, desde que, com isso, suas ações tenham sentido existencial na sociedade contemporânea.
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