Insuportável
paranóia
Filme
americano
mostra delírios
dos anos
70 e é só...
ReproduçãoCena de ‘‘Pânico e Nojo em Las Vegas’’: filme faz
tentativa de mostrar discursos políticos, mas falha
Muito difícil mesmo é encontrar em ‘‘Fear and Loathing in las Vegas’’ (‘‘Pânico e Nojo em Las Vegas’’) qualquer vestígio do cineasta talentoso, do poeta satírico que Terry Gilliam já foi em outros tempos. Tempos desopilantes e épicos de Monty Python. E tarefa igualmente inútil buscar restos do romance homônimo, autobiográfico e cult de Hunter S.Thompson. O que se vai achar neste filme natimorto que é a primeira (e espera-se, a última) grande decepção deste Festival de Cannes.
O que era para ser o testamento psicodélico dos anos 60 termina como uma irritante e confusa tentativa de fazer cinema avant-garde. Começa o ano de 1971, e sobre isso deveria ser o filme: o fim dos decisivos (ou não ?) anos 60 e o começo dos decepcionantes anos seguintes. O cenário é Las Vegas, onde chegam a bordo de um conversível vermelho dois discípulos diretos de Timothy Leary, carregados com um arsenal de drogas em perseguição ao sonho americano - citado pela menos uma dezena de vezes. São eles o jornalista Raoul Duke (Johnny Depp) e o advogado chicano Dr. Gonzo (Benício del Toro). Nos cassinos, em quartos de hotel ou na estrada, a partir daí só há espaço para trips longas e chatíssimas, bordadas com filigranas alucinatórias via efeitos especiais (monstros, principalmente) o que deve ter consumido quase todo o orçamento. Há uma tentativa de discurso político - fatos e personagens da época, Watergate, Nixon, repertório farmacêutico de drogas, Vietnan, caso Manson. Nada que justifique emoção ou reflexão, e nada também que entusiasme os sentidos. Johnny Depp, que tem por aqui o status de enfant gaté e queridinho da comunidade de cineastas bem pensantes (via Tim Burton, Emir Kusturica, Jim Jarmush, John Waters), é até certo o curioso herói deste filme que deveria ser uma ótima anedota, mas que não faz rir. Apesar de sua composição cheia de invenções e de sua maneira saltitante como um personagem da commedia dell’arte, nada mais faz do que construir sketchs que jamais chegam a compor um longa-metragem. (C.E.L.J.)

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