Instrumento milenar é vinculado aos deuses
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sábado, 23 de agosto de 2003
Reportagem Local 
Conhecido há pelo menos 1.500 anos no Japão, o taikô foi, em seus primórdios, um dos símbolos da comunidade rural, já que os limites da aldeia não eram determinados apenas geograficamente, mas pela distância que o som da batida do ''tambor grande'' podia percorrer. Esse som peculiar mostrou-se igualmente útil em outro campo, o de batalha, sendo usado tanto para assustar e intimidar o inimigo, quanto para transmitir ordens e coordenar a luta. O carregador de taikô dos campos de batalha não levava vida fácil, pois tinha de manter o tambor preso às costas, enquanto outros dois soldados, um de cada lado, encarregavam-se das batidas.
Nem só de campo e de guerras, no entanto, viveu o taikô. Ele também se destacou em refinados cenários culturais, como na corte imperial da era Nara (697-794), incluindo-se aí entre os mais bonitos e bem decorados instrumentos musicais japoneses de todas as épocas. Em outros momentos, contudo, houve quem achasse que, dentro dos taikôs, moravam deuses. Isso porque durante muito tempo ele havia sido usado para sinalizar as atividades da vida cotidiana nas aldeias. Por meio de batidas diferenciadas, avisava os homens da comunidade quando era hora de sair à caça, por exemplo, ou às mulheres, para que recolhessem as roupas e protegessem as famílias, quando se aproximava uma tempestade. Por conta desse som sempre atento e amigo, as pessoas sentiam-se gratas ao taikô, vinculando-o aos deuses. Essa crença acabou impregnando as religiões shintoista e budista e levando o taikô diretamente para os templos e dali para os rituais, como o de Bon-Odori - um similar do ''Dia de Finados'' ocidental - como parte essencial das celebrações.
No início da década de 1950, o taikô saiu de seu confinamento sagrado pelas mãos de Daihachi Oguchi, um baterista de jazz, que imprimiu um estilo moderno aos arranjos de músicas para taikôs e quebrou a tradição da solidão, formando conjuntos para apresentações artísticas com os tambores. Com a televisão, popularizou-se ainda mais a nova concepção musical e, nos anos 70, já eram mais de 4 mil os grupos ativos no Japão. Atualmente, os taikôs são conhecidos no mundo todo e, sem perder seu jeito oriental de ser, integram-se às mais diversas sonoridades com resultados que surpreendem pela energia cheia de beleza que conseguem alcançar e transmitir.


