Instrumental por excelência
As rádios de Porto Alegre transmitiam músicas de sucesso enquanto um percussionista anônimo acompanhava, de sua casa, os ritmos. Com um pandeiro de plástico - presente do pai - o futuro baterista Nenê ensaiava os mistérios dos compassos sem desgrudar o ouvido do dial. O garoto foi crescendo, ganhou um acordeon, pulou para a bateria e decidiu se profissionalizar.
Depois de rodar por alguns países fronteiriços, Nenê foi parar em São Paulo. Lá, circulou pelo cenário musical até conhecer Hermeto Paschoal, que estava formando o Quarteto Novo. Como instrumentistas andavam escassos, Hermeto insistiu para que Nenê tocasse piano. Mas o rapaz só tinha a técnica da mão direita, herança dos tempos de acordeon. Mesmo assim cedeu aos apelos do compositor, treinando a mão esquerda exaustivamente até atingir nível técnico considerável.
Hermeto Paschoal era um dos poucos músicos que se interessavam pelos ritmos tradicionais do País na época. Com o tempo, esse conhecimento foi assimilado por Nenê, que adaptou-os à bateria. Nascia um trabalho de pesquisa que permeou toda a carreira do instrumentista e está presente no álbum Porto dos Casais, lançado recentemente pelo selo do Núcleo Contemporâneo.
O disco é uma verdadeira aula de bateria, mas não se restringe ao instrumento. As melodias compostas por Nenê no violão ou no piano revelam o amadurecimento de um instrumentista que, durante muitos anos, acompanhou não só Hermeto Paschoal, mas também Egberto Gismonti, Elis Regina e Milton Nascimento.
Desde a época em que tocava com o Hermeto que faço uma releitura de ritmos brasileiros, é uma pesquisa que desenvolvo há mais de 20 anos, o Brasil possui um folclore muito forte, comenta o baterista. Porto dos Casais - o título é extraído do antigo nome de Porto Alegre - é o sexto disco de Nenê, que faz uma homenagem à cidade natal.
No álbum, Nenê é acompanhado por Vinícius Dorin nos saxofones e flautas, Magno Alexandre na guitarra, Enéas Xavier no baixo e Benjamin Taubkin no piano. Todas as faixas são compostas pelo baterista.
O disco traz composições e arranjos meus. O lançamento foi feito em São Paulo, mas a gente deve se apresentar em todos os lugares possíveis, é importante para divulgar nosso trabalho. No show tocamos os mesmos arranjos do disco, ressalta Nenê, acrescentando que gostaria de se apresentar no Paraná, se houver oportunidade.
O repertório foi elaborado para permitir uma maleabilidade na formação do grupo: As músicas funcionam tanto com três, como quatro ou cinco músicos. Além das apresentação, faço workshops em escolas, faculdades e divulgo os métodos que escrevi sobre ritmos brasileiros.
Até se encontrar com Hermeto Paschoal, Nenê se dedicava ao jazz e à bossa nova. Depois que mergulhou em ritmos folclóricos, não parou mais de estudá-los: Comecei a achar interessante. O Brasil tem esse costume de ficar copiando os Estados Unidos, mas para todo lado que viajo as pessoas estão interessadas na musicalidade brasileira, elas perguntam, têm curiosidade. Nenê ressalta que os americanos só conhecem bossa nova, mas há muitos músicos interessados em outros ritmos brasileiros.
A falta de material didático fez com que o músico transcrevesse para a partitura parte de sua pesquisa, elaborando métodos de bateria. No Brasil são poucos os bateristas que tocam ritmos folclóricos porque não há material didático. Mesmo o Mário de Andrade só recolheu a parte melódica da coisa, então tive que pesquisar para saber como era cada ritmo, explica.
O trabalho de escrita musical de Nenê é considerado pioneiro no Brasil: Tinha um baterista chamado Bituca que fez um trabalho muito interessante, mas é raro encontrar esse material. O instrumentista destaca que há poucos compositores trabalhando em cima de maracatus e maxixes, por exemplo. Todo mundo usa o pop por causa do mercado, do comércio, acrescenta.
Nenê concorda que a música instrumental brasileira está vivendo um bom momento: Tem muita gente trabalhando, está havendo um reforço com uma geração que está entre 20 e 25 anos totalmente embasada na música brasileira. Tem muita gente abandonando o fusion e o jazz rock.
Entre os motivos para a debandada de estilos idolatrados durante a década de 80 está a influência de músicos como Hermeto Paschoal, Egberto Gismonti e Robertinho Silva. É uma música difícil e sofisticada, muito mais do que o fusion, por exemplo. Há uma tomada de consciência de que está tudo aqui. Os músicos de outros países estão loucos para saber o que acontece no Brasil, argumenta.
Nenê fala com o respaldo de quem viveu 12 anos na Europa. Agora, com Porto dos Casais, pretende voltar ao Velho Continente para mostrar seu trabalho: Estou para fazer uma turnê por lá, quero levar no ano que vem o grupo do disco.
O baterista já está com repertório definido para a gravação de um novo trabalho onde vai atacar também como pianista e acordeonista: Está tudo ensaiado, tudo pronto, com o mesmo grupo e alguns enxertos.ReproduçãoNenê lança Porto dos Casais: disco é uma verdadeira aula de bateria, mas não se restringe ao instrumentoRanulfo Pedreiro





