Dois segundos de delírio de um homem podem desencadear momentos de intenso lirismo. Esse é o ponto de partida do destaque da programação de hoje no Filo 2002 que vasculha os domínios da insanidade. O espetáculo de dança cênica ‘‘Jardim de Tântalo’’, do grupo F.A.R.15, de São Paulo, traz uma concepção da insanidade burilada nos contornos do corpo. Não se trata da exploração corporal sobre a loucura, conforme explica a diretora Sônia Guedes. ‘‘Pesquisamos tanto a insanidade médica como a filosófica’’.
O diretor artístico e coreógrafo do F.A.R.15 Sandro Borelli formatou um projeto para a Bolsa Vitae de Artes sobre o tema e foi contemplado. A partir daí, concebeu o espetáculo que surgiu de observações do cotidiano até desaguar no personagem mitológico Tântalo.
O exato instante do delírio transita entre a loucura e genialidade. Na concepção coreográfica, os personagens exploram imagens de sonho para retratar o ser humano, através da ação sem palavras, revela um gestual em que os personagens vivem situações-limite. ‘‘O grupo apresenta uma coreografia em linhas retas, sem curvas, tudo muito objetivo, como uma bússola’’, explica Borelli.
O espetáculo de dança cênica apresenta uma trilha sonora em que o acordeon e piano pontuam o desespero expresso pelo corpo. ‘‘Em uma hora, apresentamos o que seriam dois segundos de insanidade. É um momento de ruptura da lucidez, um momento de impulso como se fosse uma ejaculação de neurônios’’, prossegue o coreógrafo.
Tântalo tem morada na mitologia grega. Ele tenta se igualar aos deuses e acaba condenado a um suplício eterno num jardim. Nesse local de penitência, quando Tântalo tenta beber água, ela se afasta. As árvores se encolhem quando ele se aproxima para apanhar seus frutos. Tântalo é o arquétipo da eterna insatisfação da natureza humana.
O grupo F.A.R.15 está na estrada desde 1997 e traz em sua trajetória artística espetáculos que trabalham personagens outsiders, como em ‘‘Bent’’ (peça que retrata os homossexuais num campo de concentração), ‘‘Ismael Nery’’ (sobre um triângulo amoroso do pintor brasileiro) e ‘‘Senhor dos Anjos’’ (sobre o poeta Augusto dos Anjos). ‘‘Jardim de Tântalo’’ teve estréia em dezembro de 2001, em São Paulo.

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