Muitas vezes subvalorizada, a disciplina de Geografia tem o desafio de instigar os alunos a refletir sobre diferentes aspectos do mundo ao nosso redor. Tipos de relevo, solo, vegetação, países e suas capitais continuam sendo quesitos estudados, mas hoje conseguir inter-relacionar essas informações com aspectos políticos, sociais e ambientais se tornou fundamental.
Com esse objetivo, um grupo de pesquisa com alunos do curso de Geografia da Universidade Estadual de Londrina, sob a coordenação da professora Roseli Maria de Lima, vem se dedicando desde 1994 a aprofundar os estudos relacionados à forma de melhorar os aspectos didáticos da disciplina. Na semana passada, 11 alunos participaram de uma visita de campo à Fazenda Bimini, em Rolândia, onde há 14 anos o ambientalista Daniel Steidle realiza voluntariamente um trabalho relevante de educação ambiental não formal.
Denominado ''Educação ambiental através dos sentidos'', o encontro com esses futuros professores começou com uma experiência degustativa de limão rosa. Sentados em círculo, ao redor do Relógio do Sol, no antigo terreirão para a secagem dos grãos de café, eles puderam comprovar que o paladar é um sentido que dá margem para diferentes percepções - para alguns o sabor do limão chegou a ser doce.
Com um bola de isopor representando o planeta Terra, Daniel ainda fez referências a diversas questões ambientais da atualidade, como o lixo eletrônico, a sustentabilidade e do quanto muitas vezes somos ''analfabetos ambientais'' diante das dificuldades em lidar com essa problemática.
No galpão, que já foi utilizado como depósito de café, hoje o espaço é para o debate de ideias e os alunos, superando uma certa timidez, puderam refletir um pouco sobre a prática da profissão e as maneiras de trabalhar os materiais didáticos disponíveis e que podem ser criados por eles mesmos.
Fantoches feitos com cabaças - para ajudar os alunos mais retraídos a se expressarem através de um personagem -, jogos didáticos de madeira reaproveitada com nomes de árvores, quebra-cabeça sobre a hidrogeologia do Vale da Jacutinga e até um ''livro'' movido a bateria para falar sobre as diferentes formas de energia puderam ser conferidos. Para ilustrar a importância da interdisciplinariedade, um dominó em grande dimensão com palavras-chaves demonstrou a necessidade de não abordar os conteúdos isoladamente para conseguir um ''efeito dominó'' inteligente. Outro aspecto destacado foi a capacidade de selecionar as informações a partir das próprias experiências.
Numa situação pouco usual, os alunos ainda puderam observar de perto uma jararaca capturada na fazenda - prática que inclui a sua soltura em rio. Daniel deu algumas informações sobre a espécie da cobra, os cuidados para evitar picadas e defendeu que a ''informação contribui para ajudar a diminuir o medo''. ''A tendência é querermos eliminar tudo aquilo que não conhecemos e precisamos refletir sobre isso'', ressalta.
Num antigo depósito - que foi cenário recentemente para um curta-metragem sobre o fotógrafo Haruo Ohara -, a exposição de objetos antigos, como ferros de passar roupa a brasa, cadeiras e malas, serviu para refletir sobre o conceito de sucata, o consumismo e o reaproveitamento de bens manufaturados.
Durante o passeio pela fazenda, os alunos puderam conhecer um pé de groselha, com direito à degustação de suas folhas, que são nutritivas e saborosas, e também de uma geleia do fruto. Na represa, de pés descalços, tiveram um contato maior com a natureza e os peixes foram alimentados pela mão. No momento do lanche, com suculentas ponkãs, a oportunidade de partilhar concepções sobre o alimento e a importância da seleção de resíduos na hora do descarte e a compostagem para se criar um ''círculo virtuoso'' a favor da natureza.
A aluna Karen Camargo, 22 anos, do quarto ano, se empolgou com as informações sobre compostagem e pretende aplicá-las na chácara onde mora em Londrina. ''Quanto à questão didática, fico um pouco preocupada com o grande número de alunos que normalmente se tem em um sala de aula. Acho que isso dificulta muito o trabalho do professor, mas a visita serve de inspiração'', afirma.
Bruno Bittencourt, 19 anos, no segundo ano do curso, ficou impressionado com o fato dos próprios donos da fazenda se preocuparem com a conscientização ambiental. ''Isso é muito interessante e chama a atenção as mudanças necessárias para uma vida melhor''.
''O desafio do professor de Geografia é tornar o ensino cada vez mais atrativo, principalmente porque ele concorre com a internet e a televisão. É preciso sempre repensar a didática para conseguir uma maior participação do aluno'', argumenta a professora Eloiza Cristiane Torres.
As visitas à fazenda são gratuitas e podem ser agendadas pelo tel. (43) 3256-1794.

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