Inspiradora Sharon
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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2001
Francelino França De Londrina 
Antes mesmo da antológica cruzada de pernas de Sharon Stone em Instinto Selvagem, a atriz sempre foi motivo para se tornar musa. Em A Musa, produção de 1999, ela literalmente serve de inspiração para o cinema. Na época, com 41 anos, estava mais bonita do que nunca.
O diretor, roteirista e protagonista do filme, Albert Brooks, não ofereceu o espaço merecido para o sex-appeal da star. No filme a presença carnal da atriz se dá apenas depois de 25 minutos de jogo. Mais uma vez, Sharon Stone aparece linda e estupidificada pela máquina cinematográfica. Gênio do movimento, Sharon não tem a qualidade misteriosa de atrizes do passado. Aqui ela apresenta um corpo substancioso e amorável, com direito a nudez instantânea.
A comédia, a princípio, flerta com o surreal, quando propõe que estrelas da sétima arte produzam sob inspiração emanada da musa Sarah Little (Sharon Stone). Steven Phillip (Brooks), se encontra numa encruzilhada na vida, sua verve criativa se esgotou, a indústria o regurgita simplesmente. Através de um amigo, que recebeu inspiração de Sarah e de quebra um Oscar, ele se vê envolvido com os pedidos excêntricos da musa, em troca de dicas para um roteiro estrondoso. Andie MacDowell dá o ar da graça, um tanto ofuscada.
Brooks metido a Wood Allen procura expurgar os fantasmas do star system hollywoodiano, que luta contra a areia movediça da decadência criativa. Numa espécie de divã virtual, o filme desfila os clichês da filosofia do comportamento politicamente correto e do consumismo na meca do cinema. A Musa também abre campo para uma discussão sobre um ponto de maior relevância na arte: o da criação.
Sarah entende mais de cinema que James Cameron, Martin Scorcese e Rob Reiner, que fazem aparições relâmpagos atrás de dicas da musa. Aliás, Scorcese falando é muito engraçado, parece uma metralhadora fora de controle. (Distribuição: Alpha. Duração: 89 minutos).
OUTROS LANÇAMENTOS
ReproduçãoFeito sob encomenda para dias chuvosos, Garotas de Futuro mostra tipos excêntricos que prendem a atenção do espectador
Garotas de Futuro
Pode-se esperar sempre um filme inspirado do diretor inglês Mike Leigh (Segredos e Mentiras). Com sua forma de concepção nada ortodoxa, os atores de Leigh vivem como os personagens, às vezes, durante meses, antes das filmagens, tamanha a meticulosidade com que são concebidos. O resultado se converte em risos e lágrimas e prêmios. No universo ficcional de Mike Leigh perambulam esquisitos, excêntricos, cheios de manias e tiques. Mike Leigh, homeopaticamente, vai envolvendo o espectador no enredo até deixá-lo enlevado.
Esse é o caso de Garotas de Futuro. Novamente as choronas e marginalizadas friccionam emoções até desgastá-las. A fragilidade feminina é levada ao extremo. Annie (Katrin Cartlidge) faz uma visita à colega de república Hannah (Lynda Steadman), depois de um hiato de seis anos separação. Num único final de semana passado e presente se entrelaçam. A insegurança de Annie, portadora de uma dermatite facial inexplicável, se depara com a amiga decidida e segura como o diabo. Garotas de Futuro é um filme sobre se perder e se achar, encontros e desencontros. Uma comédia dramática recomendada para os dias chuvosos. (Distribuição Estação/Cannes Filmes. duração: 87 minutos)
ReproduçãoFilme já vale a pena pelo duelo de titãs travado entre Bette Davis e Joan Crawford
O Que Terá Acontecido a Baby Jane?
Não fuja dos clássicos, principalmente aqueles povoados de monstros. Em O que Terá Acontecido a Baby Jane?, lançamento em DVD, dois monstros sagrados da sétima arte, Bette Davis e Joan Crawford, travam um duelo arrepiante. A menina prodígio Baby Jane (Bette Davis) encanta platéias com açucarados números musicais no início do século, enquanto a irmã Blanche (Joan Crawford) amarga a rejeição. Os anos se passam, os papéis se invertem e Blanche recebe os louros da fama no cinema, até o fatídico acidente que a deixa paralítica.
A decadente Jane se revela magnificamente perversa com a irmã, uma verdadeira bruxa insana, torturando-a até o limite. Bette Davis traça um retrato psicótico diabolicamente perfeito, o que valeu sua 10ª indicação ao Oscar. A antológica cena em que canta diante do espelho, refletindo sua imagem embalsamada no passado, é um dos grandes momentos de inspiração de Robert Aldrich. O Que Terá Acontecido a Baby Jane? merece tratados sobre a inveja. O final revelador e apoteótico é inesquecível. (Distribuição da Warner. P&B. Duração: 132 min.)
(interino)


