INSPIRAÇÃO RETRÔ
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quinta-feira, 17 de agosto de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Vinho bom é vinho antigo, dizem os especialistas. Ilustre degustador, o cantor e compositor carioca Ed Motta parece ter transferido suas preferências etílicas para a música, cujos ciclos de qualidade teriam segundo ele estacionados na década de 70.
Ed Motta rejeita de tal modo a produção musical recente que seu novo álbum, As Segundas Intenções do Manual Prático (Universal), é minuciosamente tratado como um objeto retrô. Do balaio de referências ao material de divulgação, tudo soa nostálgico. É um reflexo da música que escuto em casa. Quando entro numa loja de discos, vou atrás dos relançamentos e não das novidades que estão saindo agora diz ele, por telefone, do Rio.
Logo em seguida, corrige: O disco Samba Raro, do Max de Castro, é maravilhoso. O novo CD de Motta chega às lojas três anos após Manual Prático para Festas, Bailes e Afins Vol. 1, com o qual fez as pazes com o público emplacando algumas canções nas paradas. A sequência traz a mesma tinta, mas com um pincel diferente metaforiza ele, para definir o novo repertório.
Desta vez, Motta traz parcerias com Rita Lee, Zélia Duncan, Lulu Santos, Nelson Motta, Ronaldo Bastos, Chico Amaral e Blake Amos (um músico que ele conheceu quando passou uma temporada de um ano em Nova York, em 1994). A curiosidade fica por conta de Doc Comparato, renomado roteirista que estréia como compositor assinando duas letras.
A gente se conheceu através de uma turma de degustação de vinho conta. Ele não faz parte do grupo, mas é amigo do pessoal. Nunca levou nenhuma garrafa, mas sempre aparece para tomar. Começamos a conversar e ele topou fazer a parceria comigo. Rita Lee compôs Colombina, escolhida para ser a faixa de trabalho do disco.
Dançante, como a maioria das músicas do CD, traz base de house e temática de marchinha carnavalesca. O clipe promocional está sendo finalizado neste final de semana. Entre os músicos convidados, Motta resgata Ed Lincoln do ostracismo. O músico, que ele chama de mestre e pai da dance music brasileira, toca órgão na funkeada Conversa Mole.
Tenho todos os álbuns dele da década de 60. Eu o conheci através de seu filho, Marcelo Sabóia, que aliás é o técnico de gravação de meu disco lembra. O produtor e tecladista Fábio Fonseca, com quem Motta trabalhou no álbum Conexão Japeri, é outro que desponta entre os músicos participantes manipulando teclados analógicos em quase todas as faixas.
A parafernália instrumental utilizada nas gravações incluiu verdadeiras peças arqueológicas como minimoogs, Arp Omini e Arp 2600. Toda a pesquisa de timbres obedeceu a uma obsessão antiga do compositor: O que eu mais quis nesse disco foi tirar uma sonoridade natural dos instrumentos recusando a processá-los. Queria que a pessoa, ao escutar o disco em casa, tivesse a sensação de estar ouvindo os músicos tocando ao vivo.
Para obter o resultado, Motta ensaiou por quase três semanas com a banda de apoio antes de entrar no estúdio e fazer as bases. Numa segunda etapa, percorreu diversos estúdios do Rio de Janeiro em busca da melhor sonoridade para cada detalhe. Assim, um estúdio foi usado para gravar o piano acústico; outro acolheu o som do órgão Hammond; e ainda outro registrou as cordas, sopros e metais.
Nunca Motta havia tomado as rédes de um trabalho como desta vez. Além de cantar, produzir e compor todas as canções, cuidou de todos os arranjos (com exceção de Outono no Rio, de Jota Moraes). Apesar de forrar as composições com uma unidade espantosa, o álbum apresenta um leque variado de climas e referências remetendo à black music, ao jazz, à bossa nova e a trilhas sonoras da décadas de 50 e 60.
Na faixa de abertura, Mágica de um Charlatão, Motta remonta a discothéque com citações a Disco club, Papagaio e cocotas. A faixa seguinte, Dez Mais Um Amor, é uma balada soul pontuada por uma inesperada cuíca. É o grande destaque do repertório ao lado de À Deriva (balada de autoria de Zélia Duncan com um piano mortífero no final), Jóia de Mágoa (faixa na qual seus vocais se mostram mais contidos), Outono no Rio (inspirada nos arranjos para cinema de Henry Mancini) e a instrumental A Tijuca em Cinemascope (também tributária de trilhas sonoras, com direito a percussão latina e vocais líricos da cantora Mônica Maciel).
Com As Segundas Intenções do Manual Prático, Ed Motta parece equacionar a aflição de todo artista contemporâneo, que é a de aproximar o máximo de ambição estética com apelo comercial.


